Órfãos do Eldorado - Percorra a Amazônia e seus mitos
- Júlio Moredo

- 10 de nov. de 2020
- 5 min de leitura
Magistral novela de Milton Hatoum, ÓRfãos do Eldorado te levará quase que pelos braços para a Amazônia do início do século XX em todo o seu esplendor. A história cármica dos Cordovil, em paralelo a este frenesi cultural e antropológico, é "apenas" mais um convite para a leitura rápida e deliciosa.

Novela do amazonense Milton Hatoum, Órfãos do Eldorado é a obra mais ampla do escritor, onde sabores, sensações, cheiros e clima da grande floresta úmida da América são colocados em perspectiva pela primeira pessoa de Arminto Cordovil, protagonista e narrador, filho de Amando e neto de Edílio, num carma familiar que ele carrega, suporta e descreve. É o fim do ciclo da borracha e a segunda década do século XX.
O rapaz é criado na opulência e frieza afetiva de seu genitor, viúvo precoce e árduo administrador dos bens familiares conquistados por labor, malandragem e coronelismo. O menino Arminto, então, passa seus primeiros anos vivendo junto dos curumins e índios das cercanias da fazenda Boa Vida, opulente propriedade e plantação de seu pai. Com eles apreende lendas e sonhos e também descobre a paixão carnal nos braços da criada Florita, concubina de sue pai e que trará mágoas e ciúmes entre ambos numa já conturbada relação.
Sua linhagem construiu também um império mercante na aldeia de Vila Bela, rio Amazonas abaixo, a algumas dezenas de quilômetros de Manaus. Lá ele nasceu e sobrevieram os dramas que rodearam este fato. Sua mãe morre ao dar-lhe a luz e, com isso, ele ganha a referida antipatia do pai, duro, autoritário e ganancioso.
Mandado pelo pai para Manaus a fim de terminar os estudos e ficar longe de Florita, Arminto nos conta os dramas e delícias daquela imponente cidade no meio da selva, cheia de personagens sem rumo ou com sonhos que vêm de todas as partes do Brasil e do mundo atrás da utopia secular do Eldorado, forjando fortuna nos trópicos escaldantes e verdes daquelas plagas. O jovem vai aprendendo a ser homem e boêmio na efervescência desta capital, à marra e à revelia da fortuna do pai, que o olha à distância e o visita pouquíssimas vezes.
“Vi o cargueiro alemão uma única vez, de madrugada, depois de uma noitada num cabaré barato da rua Independência. Sentei no cais flutuante e li a palavra branca pintada na proa: Eldorado. Quanta cobiça e ilusão. De olho no cargueiro, lembrei que Amando detestava ver o filho com as crianças da aldeia. Flechávamos peixinhos, subíamos nas árvores, tomávamos banho no rio e corríamos na praia. Quando ele aparecia no alto da Escada dos Pescadores, eu voltava para o palácio branco. Lembrei também do desprezo e do silêncio. Isso doía mais que as histórias que ele me contava na fazenda Boa vida.” (página 21)
Compadre de seu pai, o advogado Estiliano o convence, após anos de amadurecimento, sabores e dissabores, a retornar a Vila Bela para passar o natal com Amando para se acertar com o já velho homem tanto financeira como sentimentalmente. A viagem é uma rápida regressão ao passado, que, na prosa profunda e sonhada de Hatoum, toma contornos de drama nostálgico quando ele revê o palacete, as ribanceiras e a estátua da desconhecida mãe bem ao lado de onde fora criado nas brincadeiras e mitologias dos curumins.
“Entre nós dois havia a sombra de minha mãe: o sofrimento que ele suportava desde a morte dela. Para Amando, eu era o algoz de uma história de amor. Tive medo do confronto, e hesitei. (página 27)
Tudo muda a partir daquele instante: Arminto não teria a véspera e o dia de natal para conversar e redescobrir o pai, que sofre um ataque súbito do coração horas antes do encontro. No triste desenrolar de sua morte nos é introduzido Dinaura, noviça órfã que será o grande amor da vida de Arminto, encantado que ficou com os olhos indígenas da menina. Além deste encontro belo, no funeral ele só pôde ouvir falar da alma caridosa e altruísta que fora seu pai e ele não conhecera. A herança é agora o maior colosso que terá de lidar dali por diante. O problema, contudo, é que ele, num átimo de fútil egoísmo, deixa de cuidar da empresa comercial, finanças e propriedades legadas, voltando a ser um sonhador onde crescera.
O amor por Dinaura, então, floresce. Estiliano intervém em seu favor mesmo sabendo estar o rapaz perdendo-se em negligentes devaneios. Ajudado a convencer Juana Caminal, rígida diretora espanhola das carmelitas, Arminto consegue permissão para namorar a menina aos sábados, vendo essa relação crescer em obsessão e ambiguidades pela atitude fogosa e ao mesmo tempo arisca da linda cabocla, que parece ter um passado misterioso por revelar.
A descrição da primeira noite de amor entre ambos é particularmente bela: Um dilúvio equatorial inundou a cidadezinha por dias e serve de resfriador para os ardentes corpos, unidos em várias posições e prazeres, o que desperta o doentio ciúme herdado por seu pai. Arminto começa a duvidar que Dinaura andou com meia vila a aprender tais truques sedutores. Tal e qual quando disputou o amor lascivo-maternal de Florita com Amando, ele agora se atormenta ante uma mulher deslumbrante e não totalmente verdadeira consigo. Mesmo assim, está apaixonado e quer casar-se com ela.
Entretanto, em Manaus as coisas saíram do controle do sabujo gerente de seu pai. A companhia comercial dos Cordovil perde o cargueiro Eldorado, também metáfora da trama, num naufrágio terrível em direção ao oceano. As dívidas com o prejuízo com importadores alemães, bem como a sonegação das taxas alfandegárias do porto e a queda do valor da borracha fazem de Arminto um novo pobre justo no momento em que só queria uma opulente herança para casar, viajar e desfrutar de boa vida com a sua eleita, que, para piorar, some de Vila Bela para nunca mais voltar.
Falido e desmoralizado, a imagem cuspida dos fortes coronéis Cordovil, Arminto só pensa em ir atrás da amante numa busca febril. Por todos os recantos e afluentes do médio Amazonas ele paga barqueiros para encontrá-la e só recolhe mais índias abusadas ou vendidas pelos pais, órfãs de um lado da vida como ele e a própria Dinaura, que, suspeita-se, foi mesmo morar “No mundo embaixo do rio”. A procura pela amada perdida é também o desespero por se conhecer e se completar naquela vastidão do ego, cheia de Eldorados reais e imaginados.
Vendidas a fazenda Boa Vida e o palacete, Arminto fica numa modesta casinha à espera do cada vez mais ilusório reencontro com Dinaura, definhando de desilusão e empobrecendo cada vez mais. O comprador de suas terras é um judeu marroquino chamado Becassis, pai de uma linda viúva, Estrela, que ele gosta de olhar e cobiçar à distância. Desconhecendo e conhecendo seus ancestrais em visões e revisões de terceiros, o melancólico protagonista cria dentro de si uma triste e bonita aquarela interna, remoendo em convívio diário com o que não há-de-ser e o que foi de mau na juventude perdida, um eterno carente de mãe, de proteção paterna e da paixão feminina não correspondida.
Tudo isso faz de Órfãos do Eldorado uma novela deliciosa e profunda como um largo romance. Ela é um mergulhar fundo na vastidão dos rios e árvores amazônicas que temos dentro de nós próprios, a ver o tempo sugar o que de bom temos e tivemos e o que de ruim semeamos e colhemos, com intenção ou não.




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