Como eu Atravessei a África: A Carabina d’El-Rei – Alexandre Serpa Pinto
- Júlio Moredo

- 3 de nov. de 2023
- 6 min de leitura
O minucioso diário do primeiro europeu a cruzar a África do Atlântico ao Índico mapeando suas gentes, costumes, savanas, animais, topografia e geografia, tudo no auge da expansão imperialista do Ocidente

Primeiro de dois volumes que relatam a viagem lá-e-de-volta do explorador português Alexandre de Serpa Pinto (1846-1900) entre a costa atlântica e a índica da África austral (1877-79), A Carabina d’El-Rei, publicado alguns anos depois, presta homenagem à arma de fogo que salvou sua vida algumas vezes no percurso.
Ele nada mais é do que um livro de bordo, diário de viagem e, acima de tudo, valioso relato da concepção do homem europeu sobre tudo o que era considerado agreste, selvagem, indomável ou, em e tratando de gentios africanos, “incivilizado”, tornando-se peça importante para se entender o tal “fardo do homem branco” que o poeta inglês Rudyard Kipling descreveu na segunda metade do século XIX, Belle Époque das ciências, do darwinismo social e evolutivo e da consolidação da segunda Revolução Industrial no Ocidente.
“Pelas 4 horas formou-se sobre nós tempestade violenta (...) Chimbarandongo fez um discurso aos seus macotas tendente a provar-lhes que nós tínhamos trazido a chuva e com ela grande benefício para o país (...) Tentamos explicar-lhe que não tínhamos tão grandes poderes e que só Deus governava nos grandes fenômenos da natureza, levando a questão a ponto de lhe explicar por que chovia (...) Depois disso, tendo se reunido com o povo, ele disse que, se deixasse de chover, indagaria quais de seus súbtidos tirara a chuva e o castigaria com a morte; Novo discurso de nossa parte contra a pena capital (...) (Página 84)
Com bom texto para um militar e cartógrafo, o testemunho de Serpa é um retrato fidedigno do que viveu, sempre reforçado por ótimas ilustrações. Explorando, involuntariamente, e mostrando, voluntariamente, cada aspecto preconceituoso que havia na Europa para com o ignoto sertão da África Subsaariana e o seu encanto, vastidão ou mesmo magia que possuía e entorpecia seus visitantes.
Após longo trecho de agradecimentos quase sabujos mas que são, ao se conhecer melhor o caráter do narrador, nada mais do que sua humildade, Alexandre conta como fez para convencer primeiro o governo de Lisboa, então sob comando da monarquia constitucional de Luís I de Bragança (1838-89), e, depois, arregimentar companheiros de empreitada, indo de seguida a Paris e Londres para equipar a expedição com o que havia de melhor em matéria de tecnologia para, enfim, zarpar de Portugal no rumo de Luanda, capital da então colônia/província ultramarina de Angola.
Como Homem letrado da alta sociedade lusitana, ele nos relata tudo de forma muito rica em matéria de vocabulário, padecendo, claro, de certo estilo literário (algo que o próprio diz não ter pretensão de possuir e de apenas discorrer, fidedignamente, como tudo se passou). A partir do segundo e terceiros capítulos essa história começa a entreter um leitor interessado em historiografia e louco por conhecer o desbravar tardio que a Civilização Ocidental teve naquele continente estonteante que deu berço à humanidade.
Através de detalhamentos crus porém bem descritivos de suas inumeráveis agruras e dores físicas e mentais, como as febres e reumatismos e, claro, as saudades do seu lar, do calor do Algarve, onde morava junto da esposa e da filha pequena, e das brisas frias do Douro e Trás-os-Montes, onde se criou, Serpa Pinto nos vai instigando homeopaticamente a superar o certo tédio de um relatório quase que totalmente protocolar da aventura a cada página, muito similar ao de um soldado reconhecendo um campo de batalha inimigo.
“Longe das vistas do mundo civilizado, fora desses círculos de ferro que apertam a humanidade culta a que chama código penal e as conveniências sociais, círculos que, apesar de estreitos, deixam ainda bastante latitude ao crime e à infâmia , o explorador de África, perdido no meio de povos ignaros, cujos códigos diferem essencialmente dos nossos, tendo por única testemunha de seus actos a Deus, por único censor das suas obras a sua consciência, precisa ter uma força sublime para se conservar honrado e digno quando muitas vezes as paixões travam no seu íntimo uma luta infrene. Por mim o digo que todas as ovações que me tem dispensado o mundo civilizado pela felicidade que tive de vencer obstáculos materiais no meu caminho, seriam talvez mais justamente aplicadas se se soubesse quantas e que terríveis lutas sustentei para me vencer a mim mesmo.” (Página 116)
Ao leitor mais interessado, perspicaz e ávido de conhecer a saga do primeiro europeu a cruzar mapeando a África de costa a costa, entretanto, vale cada esforço para a recompensa final, que certamente é o papel indireto que o autor teve como antropólogo ao descrever seus carregadores, chefes tribais (chamados sovas), sacerdotes, “cirurgiões”, adivinhos, escravos e guerreiros das sociedades afros que ainda pouco ou nada contactaram os europeus que viviam na faixa próxima ao litoral.
Se as análises pecam, como dito, em ranço e racismo devido ao próprio contexto em que o aventureiro viveu, é fato consumado e conclusivo para qualquer leitura mais atenciosa que o caráter do mapeador é no mínimo justo para os padrões daquele momento quando este avalia a qualidade de índole, hábitos e heranças culturais dos nativos de modo bastante imparcial, surpreso e bastante interessado como novidade, não como escárnio eurocentrista.
Ao chegar a Luanda, Serpa logo se dirige à foz do Congo à caça de apoios para a epopeia e, depois,não obtendo sucesso, vai a Benguela, cidade sede da presença portuguesa no sul angolano. Lá ele consegue arregimentar, preparar, equipar e entrosar muitos carregadores das imensas bagagens de sua comitiva, que, além dele, contava também com outros dois portugueses de sobrenomes Capelo e Ivens.
De seguida a esses eventos, e com partida belamente narrada pelo escritor numa passagem em que vislumbra, de pés na areia, a imensidão do Atlântico pela última vez pelos seguintes dois anos, a narrativa se volta ao processo descritivo de cada passo dado, cada rio atravessado e um a um os sons de bestas-feras, como leões, hienas, hipopótamos e elefantes, além de ventanias, trovejares, chuvas torrenciais e tocos de madeira despenhados das delgadas árvores daquelas savanas em que se embrenhou na rota oeste-leste, de Benguela ao Bié, última província com presença branca (na parte um reino independente).
“Quem o não presenciou não avalia o que seja uma tempestade de noite no meio das florestas da África austral, quando ao ribombar dos trovões se une o grito multíssono das feras, que nos vem ferir os ouvidos com acordes terríveis. A chuva apagou o fogo do campo, o vento soprou longe os frágeis abrigos e o raio, descendo em luminoso ziguezague, torna mais escuras as trevas depois de seu rápido fulgor. Muitas vezes, ao estalido do raio sucede outro estalar medonho. Foi a árvore, que levou séculos a crescer e que num momento, ferida por ele, voou em rachas e baqueou. O espetáculo é horrível mas grandioso e sublime!” (Página 131)
Dali, a ideia era ir rumo às altas cabeceiras do Zambeze, rio maior daquelas plagas. De lá, a senda iria para sudeste, atravessando as atuais Zâmbia e Zimbábue (outrora Rodésia, região reivindicada tanto por Portugal como por Inglaterra) para chegar via Moçambique a Durban, na costa do Índico da Àfrica do Sul.
Os infortúnios se amontoam e só valorizam a conquista da viagem pois, sem quaisquer exageros ou autoelogios por parte de Alexandre, tomamos parte do abandono que seus companheiros cometeram, da morte de seu bode de estimação e das suas quase-mortes ao lutar contra um enlouquecido búfalo e ao atravessar febril e nadando com uma só mão um largo afluente do rio Cuanza, afora, claro, dos desentendimentos com sovas traiçoeiros. Durante muitas destas ocasiões, a cambiante saúde de Pinto o forçou a ser carregado por seus fiéis moleques, como ele mesmo chama os meninos afros.
Em suma, é uma história de persistência, resiliência e que ensina-nos muito sobre a natureza inconformada do homem, sempre sedento por conhecer o que há mais adiante de seu horizonte em matéria de paisagens, animais, plantas e pessoas, não havendo geração mais obcecada por esses conhecimentos todos do que aquela em que José Alexandre de Serpa Pinto viveu, nascedouro da epistemologia científica, do positivismo metodológico nas escolas e universidades e também, infelizmente, da prepotência e ganância líderes, políticos ou empresários, da Europa e do ascendente EUA sobre as partes mais longínquas do globo.
“Se de alguma coisa me orgulheço na minha viagem é desse tempo. Mai tarde joguei muitas vezes a vida, fui decerto mais uma vez temerário, mas era obrigado a isso para me salvar. Ali não! Estava doente, quase anêmico e sem recursos. Uma facilidade relativa me abria o caminho de Benguela e da Europa. Mil dificuldades, que provinham da separação de meus companheiros, apresentavam-me uma barreira quase impossível de transpor para empreender exploração qualquer. O desânimo reinava na minha própria gente.” (Página 138, aquando do abandono da comitiva e da tentação de voltar atrás, resusada por Serpa Pinto, no Bié).
Por isso, se não podemos deixar de notar que Serpa parece sempre julgador dos atos ditos bárbaros dos indígenas da África, é razoável e mesmo justo dizer que foi ele dos mais compreensíveis e imparciais dos seus juízes caucasianos naquele momento do mundo. Quase sempre parecendo um cavalheiro humanista ao descrever o mosaico antropológico ao qual o explorador (vencedor da Medalha dos Fundadores, o Nobel da aventura) passou, deixando A Carabina d’El-Rei e a sua continuação, Do Atlântico ao Mar, como legados à posteridade deste legítimo herói do Ocidente.




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