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Uma criatua dócil - Simplesmente Dostoievski no seu melhor

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 12 de jan. de 2021
  • 5 min de leitura

Atualizado: 14 de jan. de 2021

Conto onde o âmago do egoísmo amante nos é desfilado pelas reflexões de um narrador atormentado pela culpa e que a espera eximir pelo perdão do leitor...que tende a não fazê-lo

Maculando profundamente as entranhas da alma como nenhum romancista o fez, seja ele de qualquer gênero, Fiodor Dostoievski, um filósofo-escritor, nos apresenta este conto como um dos expoentes de sua fase psicológica no que foi conhecido como realismo russo. O texto corrido coloca novamente o leitor como expectador e receptor dos diálogos mentais e planos de um solitário e complexado penhorista que, sem perceber, através de esnobe manipulação, se apaixona por uma adolescente desesperada e em miserabilidade. Ambos não têm nomes, uma marca do autor.


A linda mocinha vem quase todas as manhãs ao seu escritório para oferecer pertences baratos porém altamente sentimentais a ela em troca de uns poucos centavos do atual rublo, moeda corrente na Rússia. O homem é de um amargor extremo e se encanta com o contraste dócil e encantador, de bravura e resignação temperadas com bondade que ela se lhe apresenta.


Começa ali um jogo de sedução sentimental que o irá levar ao amor nunca antes conhecido e à paixão arrebatadora pelas alvas e ainda puras curvas de seu rosto e corpo belos de se ver. Nunca pondo de lado seu orgulho, o homem começa a dar dicas de como ela deve anunciar seus préstimos nos periódicos de São Petersburgo, local onde a narrativa se dá. Ao fim e ao cabo, o inevitável pedido de casamento acaba ocorrendo para salvar aquela angelical alma.


“Ela de repente se permitiu trazer uns restos, digo literalmente, de um coletinho velho de pele de coelho, e eu não aguentei e de súbito disse algo, como um gracejo. Deus do céu, como ela se encolerizou! Os olhos azuis, enormes, pensativos, mas como brilhavam! Ela não disse uma palavra, pegou seus ‘restos’ e saiu. Foi então que, ela primeira vez, eu a notei de maneira especial e pensei algo assim a seu respeito (...) era incrivelmente jovem, tão jovem, não parecia ter mais que catorze anos. No entanto, estaria completando dezesseis em três meses.” (Pág.13)


Pouco a pouco a dialógica do narrador-protagonista vai ficando clara: O encantamento da pureza, resiliência e amabilidade, esta mesmo que oculta, vai tomando-o de assalto logo ao terceiro encontro para penhora da dama em flor de idade. Ele, como que em um divã em forma de páginas, assim vai relatando ao leitor o quanto se encantou e, num egoísmo já quase palatável, queira essas virtudes em forma de gente só para si, aproveitando-se de que ela era órfã e vivia com duas tias que a escravizavam. Logo ele se viu em posição de vantagem para lhe sacar em matrimônio e mostrar que ele, sim, tinha capital financeiro e social para supri-la.


“Foi exatamente o que pensei sobre ela com orgulho e alegria, porque aqui residia também a magnanimidade: mesmo estando à beira do perecimento, ainda assim as palavras de Goethe brilhavam para ela. A juventude, nem que seja um pouquinho, ou de maneira torta, consegue sempre ser generosa. Ou seja, afinal estou falando dela, só dela. E, o mais importante, na ocasião eu já a considerava minha e não duvidava de meu poder.” (Pág.20)


O casamento então é feito às pressas e discretamente, para livrar a pobre moça de um cinquentão gordo, o agiota a persuade a se unir a ela em uma rápida cerimônia, com apenas Lukéria, sua funcionária e espiã, como testemunha. Por fim, em questão de semanas, logra ele subornar as tias e também roubar a atenção, e não ainda o coração, daquela linda, valorosa e pura flor em botão, à qual ele esperava sugar todo o néctar jovial que esta possuir para sanar suas dores ou frustrações mundanas acumuladas em 41 anos de sofrimento, fazendo do leitor cada vez mais um juiz de seus atos.


O curioso da prosa de Dostoievski ao enfocar o relato em primeira pessoa do personagem principal é o fato de que ele próprio se faz, como nos é peculiar a todos, mais de advogado do que de promotor próprio, deixando quem lê sus densas e corridas linhas muito mais propensos a pensar mal dele do que o contrário, pois o efeito de se defender a todo instante do egoísmo e centralização da tenra vida da esposa fica latente a cada linha, tudo cheio de auto piedade.


Ao começar a ajudá-lo na casa de penhores, a menina vai ficando cada vez mais oprimida pelo casamento de práticas sovinas e ao mesmo tempo regradas do seu esposo. Teatros uma vez ao mês como mimos-surpresa fora da agenda contrastavam com a avareza extrema nos gastos com mobília e alimentos. Peculiar é que, numa sociopatia extrema, o narrador se escusa de dizer o porquê da poupança a longo prazo, “obrigando” sua mulher a adivinhar a austeridade como algo benévolo e, além de tudo, demandava dela um amor austero e sério, sem histeria juvenil, o que, por óbvio, levou a relação de ambos ao silêncio cotidiano desgastante.


Toda a relação começa a azedar quando a nova pluma começa a precificar penhores no negócio do marido, para a cólera deste. Ele também descobre, via as tias da garota, que esta estava saindo com Iefemovitch, um antigo inimigo no exército que o acusou injustamente de covardia pela recusa a um duelo forçado. Um canalha contumaz. Neste contexto o pêndulo emocional da trama novamente gira loucamente entre a traição e a virtude, a doçura e a truculência, o amor e o ódio entre o casal. Não havia nem traição com seu desafeto militar nem tampouco maior amor nascido do flagra que o protagonista deu em uma das conversações do tenente com sua mulher. Já sabendo do passado difícil e miserável do companheiro, a mocinha com ardil foi encontrar Iefemovitch apenas para provocá-lo.


Com o mesmo revólver que o narrador havia levado em caso de adultério entre seu inimigo e a esposa, a menina-moça atenta contra a vida do marido e suposto benfeitor já na manhã seguinte ao flagrante infrutífero dado durante o encontro nada amoroso. A cena, toda muito dostoievskiana, é temperada de dramaticidade pelo leitor não saber aonde o pêndulo emocional dessa vez irá recair, se no ódio pelo esposo ou na tristeza pela sua vida presa e sem saída. Simular dormir na cama contribuiu ainda mais para dar contornos melancólicos a essa corajosa chantagem emocional, única arma dele contra o revólver.

“Aos meus olhos ela estava tão derrotada, tão humilhada, esmagada, que me compadecia dolorosamente dela às vezes, embora ao mesmo tempo me agradasse a ideia de sua humilhação. A ideia de nossa desigualdade me caía bem.” (Pág.68)


Na mesma semana, a bela criação divina adoece de febre delirante. Seu homem, carcereiro e mecenas fica velando-a até sua recuperação, num misto de amor, piedade e triunfo pelas provas de coragem e maturidade dadas a ela. Tudo nada mais era do que um adiamento de uma relação fadada à morte, física ou espiritual, de um dos dois: O desgastado meia-idade, carente de admiração e tornado egoísta pelos flagelos que acometeram-no, e a jovenzinha pura, ingênua e vivaz. O fim do conto trará este reflexionar sobre o desamor cultivado e o espelhar de alegria em outrem para suprir traumas e escaras nessa morte viva que suportamos na Terra.

 
 
 

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