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Jó - Romance de um Homem Simples – Joseph roth

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 14 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 30 de out. de 2025

Inesquecível desde o título, livro dá lições em triste ternura. Dono de uma profundidade empática em cada personagem, Jó cria rápidos laços afetivos em quem o lê


Sensibilidade expressa via vivazes metáforas nos contam a morte em vida de uma piedosa e ordinária família de judeus na virada do século XIX para o XX. Em Jó - Romance de um Homem Simples, temos uma obra tão singela como singular do escritor austro-ucraniano Joseph Roth, também ele de ascendência hebraica.


Roth inacreditavelmente não é tão reconhecido como outras figuras de proa do modernismo, como Prost ou Joyce, mas em nada fica devendo a estes e outros contemporâneos.


Na trama, como dito, a dinâmica familiar, o vazio existencial e uma certa falta de fé dentro da religião são expostos na família como um todo e em cada um de seus membros, com a relação entre o homem e seu pretenso Deus sendo explorados com maestria narrativa pelo autor, que descreve a esperança de cada um galgar a felicidade no mundo sendo engolida pela dor das desventuras terrenas.


A figura central da obra é Mendel Metchelovitch Singer, pai e chefe de um clã composto por ele, a esposa, Débora, e seus três filhos: o forte, impávido e resiliente Jonas; o ágil, curioso e astuto Schemariah (os dois primogênitos são claramente uma dicotomia entre força bruta e razão); e a doce, dissimulada e calculista Miriam. Além deles, por último veio Menuhim, caçula e foco do enredo, este desfigurado pela epilepsia e por uma deficiência intelectual inata.  


Todos vivem num gueto judaico em Dubno, ermo agrário entre as atuais Polônia e Ucrânia que à época estava sob jugo da Rússia czarista. A região era eivada de antissemitismo, praxe em todo o leste europeu. Como figura paterna, o protagonista, que recebe no título a alegoria da paciência esperançada em Deus do bíblico Jó, é um sujeito caricato e comicamente religioso, mantendo seus familiares à base de aulas particulares em que, como seu pai e avô, explicava a Torá aos meninos da vizinhança.


Em seu dia a dia, ele preza pela temência a Javé, Deus-Pai das religiões abraâmicas, e respeita os rigorosos ritos, feriados, celebrações e orações de seu povo, esperando assim o compadecimento póstumo que um hebreu merece ao viver em plena obediência aos Mandamentos de Moisés.  


Sua mulher, Débora, por outro lado, é sonhadora mas caiu na desgraça que acometia todas as moças de seu tempo — casou-se cedo e resignou sua existência a uma extensão àquela de seu homem, tornando-se uma dedicada dona de casa a seus filhos, que vieram em sequência até sua terceira década de vida.


Menuhim, o último destes rebentos, entretanto, nasceu enfermo, levando-a a buscar bênçãos do rabino local a fim de forjar ao filho problemático porém mais amado um modo de o curar. O religioso, então, garantiu que a criança teria, com fé e paciência, uma redenção após a primeira infância. O tempo e a falta de médicos, contudo, mostraram que as bendições rabínicas pareciam vazias.


A doença do mais novo, inclusive, deveu-se também à crença inabalável do próprio Mendel, que impediu um sanitarista de levá-lo ao consultório e o medicar para que suas pernas, troncos e mente fossem sanados das moléstias, fato que se revelará doloroso e reflexivo a um ser que viveu com cega fé na Providência.


Essas reflexões ficam mais fortes à medida em que a história se desenvolve. De maneira muito humana, Roth nos mostra as angústias de olhar ao vazio desamparo da vida terrena, ao rápido vagar dos dias sem enxergar ou sentir apoio além de nossas próprias forças e limitações.


Em crescendo, o leal e bruto Jonas se enamora do serviço militar (estamos às portas da Primeira Guerra Mundial, na qual o Império Russo participa ao lado de franceses e britânicos), indo, à espera da convocação, morar com o rude mas bondoso carroceiro Sameschkin. Schemariah, o outro irmão, desejava algo a mais do que sangue, camaradagem e morte: queria testar e conhecer o mundo.


Tendo ambos sido convocados e aprovados pelas tropas do Czar, Débroa, em desespero e com parcas economias, procura Kapturat, burocrata de baixo escalão da área, para salvar um de seus filhos do tormento da guerra. No arranjo, Jonas ficou-se para servir ao país primeiro como peão, cavalariço e cocheiro citadino e depois como soldado no front de batalha ante alemães e austríacos, ao passo que Schemariah, desejoso de vida mais profunda, escapa clandestinamente pela fronteira ocidental.


Na casa ficam apenas Miriam, já seduzida pela vida libertina que o vaivém de soldados cossacos na região permitia, e o desditoso Menuhim. Deste ponto em diante a melancolia vira uma personagem crucial da obra.


Inversamente proporcional é a singeleza e a empatia quase imediata que o leitor terá com aquele casal tão zeloso e cumpridor de suas obrigações parentais e matrimoniais, aprendidos pela força da comunhão diária a perdurar no destino a eles traçados, implorando apenas que desgraças não acometam uma existência por si só já bastante apagada e esquecida.


Aqui o livro lembra muito Cem Anos de Solidão, com a diferença de este tratar apenas de uma geração familiar. Roth tem o condão, raro até entre romancistas, de espalhar o eu-lírico um pouco por cada um dos intervenientes.


Schemariah consegue se enlaçar em noivado ainda na Europa, partindo, após alguns meses de serviço alfandegário, para os Estados Unidos, donde almeja ver toda a família, à exceção de Jonas, já no exército. O paradigma dos Singer, presos entre resignação do destino e a possibilidade de sonhar com algo a mais, é finalmente posto a prova. O que virá a seguir é um novo mundo temperado por antigas e permanentes desventuras.


O desfecho disso tudo chancela a profundidade empática presente em cada personagem. Camaradagem inesperada, analfabetismo e machismo feminino aparecem na epopeia reflexiva de Mendel rumo a um literal Novo Mundo, mas com velhos traumas, infortúnios, desamparos e (des)esperanças. Jó tem um caráter único e o condão de criar rápidos laços afetivos em quem o lê, fazendo-nos pensar em nossa própria forma de estar nesta curta vida.

 

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