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Nada de Novo no Front – Erich Maria Remarque

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 27 de mar. de 2024
  • 5 min de leitura

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Denso, trágico, pacifista: palavras que pouco definem essa obra que pavimentou o pós-modernismo cultural no Ocidente pelos horrores da morte em massa nas Guerras Mundiais

O visceral Nada de Novo no Front, romance de Erich Maria Remarque, pseudônimo do alemão Eirch Paul Remark, ele próprio o soldado e personagem principal, sob o nome de Paul, narra e experimenta o inferno da Primeira Guerra Mundial, entrando-nos pelos olhos como um manifesto pacifista ante a barbárie atroz e ignorância odienta às quais o ser humano é capaz de chegar, sem mais!  


Pelo meio do caminho, claro, há que se destacar o lirismo único do autor, que mescla qualidade literária indistinta a um diário de combatente por si devastador à alma de quem o lê, preso página por página.


Não à toa é dos livros mais célebres do século XX e mereceu adaptações ao cinema, já que retrata uma época que inaugura uma nova fase para os estratagemas bélicos, principiando também um  momento inovador do pensamento filosófico, pondo em perspectiva quem somos, por que estamos aqui e qual o papel de uma humanidade pronta para matar semelhantes como moscas via armas cada vez mais cruéis e letais, providas e desenvolvidas com dinheiro da sanha de ceifar vidas a câmbio do domínio econômico global de uma minoria gananciosa, confortável e já vivida.


Se a guerra é “o jovem morrendo e o velho falando”, como falou Odisseu numa das adaptações de Tróia, este livro se assemelha muito a um ensaio sobre morrer precocemente numa fétida trincheira, elucidando-nos de um jeito factual e poético como isso ocorre, visto ter sido escrito por meio de relatos corridos do próprio cabo Paul em suas divagações, experiências, interações e feitos durante sua estada como oficial do exército prussiano pela Alemanha do Kaiser Guilherme II, em plena hostilidade contra os aliados franceses e britânicos nos pântanos da Bélgica entre 1914 e 1918, auge do que chamamos de Segunda Revolução Industrial.


O leitor verá muitos jovens cheios de sonhos caírem metralhados friamente nas lamas belgas junto a muitos velhos falantes, senhores da sina de cada um dos recrutas.  Na trama vemos as reflexões de um quase adolescente Erich sobre sua vida no cotidiano do front, contado desde seu recrutamento, convencido que fora por uma “missão patriótica” explanada por seu professor escolar. O testemunhal passa depois pelos assédios morais criminosos da preparação na caserna, culminando com sua participação ativa nos bombardeios e contraofensivas germânicas durante as batalhas por cada milímetro de terra entre a França e a sua Alemanha natal.


Por suposto, durante a narrativa vemos o jovem se transformar pouco a pouco na besta-fera que tanto condena, pura e simplesmente porque esta é a única chance que tem ele e os seus fraternos camaradas de sobreviver, o que faz do leitor também seu colega de farda, cúmplice e confessor, levando-o a crer em tudo o que ele reporta e sente, dada a circunstância extraordinária pela qual está passando (uma guerra crudelíssima). Sua magistral capacidade descritiva, de cenários, ferimentos e sentires, só qualificam ainda mais a obra.


Assim Remarque nos vai introduzindo os amigos mais próximos do protagonista, irmãos de armas. São eles o astuto e embrutecido Kropp, o mal-humorado Tjaden, o pessimista Kremerich, o simplista Muller, o despachado Leer e o valente Kat, todos com no máximo 22 anos e já prestes a encarar a morte como uma redentora daqueles sofrimentos intensos sem que nenhum deles tenha vivido as benesses ou prazeres da juventude.


Ah, as pálidas caras de nabo, as mãos crispadas, a valentia lamentável desses pobres coitados, que , apesar de tudo, avançam e atacam; esses pobres-diabos corajosos, tão atemorizados que não ousam gritar e que, com o peito, o ventre, os braços e as pernas dilacerados, soluçam baixinho pelas suas mães e calam-se assim que se olha para eles!” (Capítulo 6)


A história começa no centro/quartel dos calouros convocados por todo o país, em total mobilização socioeconômica para enfrentar a grande tormenta que viria a ser a primeira de duas Guerras Mundiais. Muitos historiadores, aliás, juntam, com razão, ambas numa mesma grande carnificina porque suas causas eram idênticas e os promotores da Segunda foram partícipes diretos da Primeira, sem mencionar as inovações que tornaram a morte um negócio e a vida algo desprezível para os desígnios dos donos do poder político e financeiro.


É nesse triste amálgama que se encontram os iniciados no exército, como Erich e seus companheiros que, desde as escolas, escutam o fulgor prosélito de professores irresponsáveis, levando-os de paradisíacas existências interioranas ao purgatório claudicante das tropas de vanguarda, e isso apenas com alguns meses de treinamento.


Após passarem por um “Céu” disfarçado de inferno (eles logo veriam o que era a verdadeira treva dos postos de comando e o purgatório da retaguarda das trincheiras), o grupo de colegas inicia sua degeneração gradual que o texto nos conduz, com detalhes perturbadores de como é rápido o gatilho que muta pessoas capazes de coisas fantásticas, gestos nobres ou ações solidárias e as rebaixam a assassinos sanguinários, bárbaros irremediáveis.


O próprio método de treino que a escola prussiana apregoa é por si um aceno a essa intenção, o que Freud certamente classificaria como o “Lobo aflorando de dentro do homem”, legitimando a destruição pela destruição. Um sábio indígena cherokee complementaria que o livro de Erich alimenta o “Lobo mau, negro, que habita dentro de nós”, desnudando-o ao mundo.


Chegados às escaramuças das trincheiras de uma guerra desesperançada a qualquer um dos lados depois de passarem pelos piores castigos físicos, verbais e morais  de um cabo naturalmente sádico que teve seu sadismo chancelado, o grupo agora se vê no pior dos cenários: começa a se bestializar antes sequer de sonhar em ser herói de algo, odiando a todo momento a atitude impensada que tiveram ao se alistar para, morrendo ou vivendo em buracos de granadas, via bala, baioneta ou gás, seriam mortos-vivos refeitos pelas matanças e massacres, tudo isso sem sequer terem conhecido as virtudes humanas da arte, da paz e do amor.


As cenas descritas por um mestre da prosa fazem com que a experiência de ler Nada de Novo no Front seja ainda mais perturbadora por ele ser, também, um livro-reportagem onde o escritor experenciou como é seguir adiante, numa morte viva que a guerra quebrantou, que fica clara quando ele se depara com uma licença de duas semanas e retorna ao seio familiar.


E, mesmo se essa paisagem de nossa juventude nos fosse devolvida, mal saberíamos o que fazer dela. As forças ternas e secretas que suscitavam não podem mais renascer. De novo, poderíamos permanecer e passear neste cenário; Lembrar-nos-íamos dele e ama-lo-íamos; ficaríamos comovidos ao vê-lo, mas seria o mesmo que olhar a fotografia de um companheiro morto: as feições são suas, os traços são seus e é o seu rosto; São os dias que passamos juntos que ganham uma sombra de vida na nossa memória, mas já não é mais ele.” (Capítulo 6)


Parceiros de marchas, saques, furtivas aventuras amorosas e lutas corpo a corpo morrem dilacerados. Meninos calouros são igualmente postos no limiar da obliteração sem o menor treinamento físico ou mental. Fome, pestes, misérias sanitárias e mais um menino Erich foi, viu e perdeu, contrapondo aquilo que disse Júlio César, senhor de guerras, ao conquistar, séculos antes, a Gália: “Vim, vi, venci”. Quem perde, na verdade, César, somos todos nós quando os piores instintos do homem triunfam, culminando nos autoritarismos nazifascistas e comunistas.  

 
 
 

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