Triste fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto
- Júlio Moredo

- 13 de out. de 2021
- 7 min de leitura
Atualizado: 29 de out. de 2021
A tragédia anunciada na vida de um real idealista e patrióta num país de saqueadores

Misturando algo entre José de Alencar e seu romantismo pátrio com a acidez e secura racionalista de Machado de Assis e Eça de Queiróz, especialmente no que concerne às duras críticas ao positivismo militar da Primeira República, no auge do sangrento governo de Floriano Peixoto (a quem muitas vezes chama de ditador), Lima Barreto apresenta-nos sua obra-prima como uma espécie de biografia em terceira pessoa do protagonista, o Major Policarpo Quaresma, ex-servente militar por força de vontade própria, melancólico até os ossos e patriota de modo altruísta e cego dos calcanhares à cabeleira, valendo, por isso, o apelido de Ubirajara na repartição carioca onde trabalha.
O texto é de uma riqueza cultural ímpar, a despeito de ser igualmente um pouco travado, prolixo e aborrecido em certas passagens transitórias, fazendo muitas vezes certos personagens “sumirem” e “reaparecerem”.
Além disso, cheio de troças sutis ao próprio personagem em cada linha de descrição sobre seus saberes sobre a terra descoberta por Cabral, de sua obsessão com nossos poderosos rios, especialmente o Amazonas (ao qual detesta que seja comparado ao Nilo, maior por alguns quilômetros), a natureza exuberante do país e suas riquezas naturais inexploradas, além, claro, de cultuar os vultos do passado, as guerras em que o Brasil esteve envolvido e suas heranças materiais e imateriais, como dança, bebidas e comidas típicas.
Policarpo é, por este comportamento, alguém solitário e extremamente esquisito e evitável por quem o conhece, de sua família aos colegas de trabalho, simbolizando o quão dura é a vida de quem a vê com a extremosa paixão dos utópicos, seja por que causa for.
“Não se sabia bem onde nascera, mas não fora decerto em São Paulo, nem no rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo: Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São Paulo, não eram o ouro e diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves – era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira do Cruzeiro.” (Capítulo I)
Rapidamente nos são apresentados seus principais comensais cotidianos para os seus estranhos hábitos de funcionário público em férias: a irmã Dona Adelaide, o general Albernaz e sua grande família, vizinhos de rua e de apetites por festas e danças nacionais, mas não do patriotismo abnegado de Policarpo, o instrutor de modinha Ricardo Coração dos Outros, um músico boêmio, além do negro-criado Anastácio, de Ismênia, uma das quatro filhas do general, aparentemente noiva a de eterno (uma clara e dura crítica de Barreto ao casamento forçoso das mulheres), e de Vicente Coleoni, compadre italiano refeito no Brasil pelas ajudas de Policarpo, e sua filha Olga, afilhada do major e aquela que mais admira o altruísmo do padrinho, sem se importar com sua constrangedora excentricidade.
A obra, na verdade, reflete justamente isso mesmo: O que é ser um patriota acima de tudo? Será que caímos nos chistes alheios se nos entregamos de corpo e alma a uma causa pelo solo materno? É com um vocabulário espesso e passagens inteligentes, sempre com pitadas de humor beirando o absurdo que Lima Barreto tenta desvendar este mistério e passar esta mensagem a quem lê este seu trabalho maior.
Ao introduzir-nos cada um destes personagens e mais alguns nas mais banais situações diárias, principalmente nas festas do general Albernaz, Barreto vai intrinsecamente deixando claro ao leitor o quão solitário e escarnecido está o bom Policarpo, cercado de alpinistas sociais, covardes (o militar esteve na Guerra do Paraguai, mas sequer desferiu um tiro) e aproveitadores da pátria que tanto ama, seja no funcionalismo público, seja nas profissões liberais sustidas pelo Estado, com seus colegas de função apenas a pensar em promoções e benefícios previdenciários em postos militares e de secretarias, onde as mamatas continuavam e eram única e exclusivamente o foco dos membros das academias marciais.
Para além disso, a figura inteligente, idealista (acima até do dominante positivismo da época) e extremamente romântica para com sua pátria deixa claro que todos à sua volta, talvez à exceção de sua irmã e afilhada, o veem com o desprezo de quem não se sente parte de um todo chamado Brasil (como vemos ocorrer hoje em dia ainda).
Todos troçam às suas costas pelas suas extravagâncias em prol de um futuro brilhante ao Brasil. Um episódio emblemático disso é quando o subsecretário Quaresma propõe ao Judiciário nacional a alteração da língua portuguesa pela tupi-guarani como oficial e nacional. Quaresma virou caso de imprensa quase todos os dias, sendo objeto de risos, ironias e antipatia da sociedade, colegas e vizinhos. Para o leitor, pela visceral descrição da psique e alma do protagonista, sobra a piedade e condescendência a um espírito valoroso mas solitário, desajustado pela sua própria qualidade num mundo cheio de objetivos mesquinhos e pequenos.
“Vivendo há quase trinta anos quase só, sem se chocar com o mundo, adquirira uma sensibilidade muito viva e capaz de sofrer profundamente com a menor coisa. Nunca sofrera críticas, nunca se atirou à publicidade vivia imerso no seu sonho, incubado e mantido vivo pelo calor dos seus livros (...) esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de estranho a tudo, às competições, às ambições, pois nada dessas coisas que fazem os ódios e as lutas tinham entrado em seu temperamento.”
Após ser considerado louco pela sua repartição pela substituição do português pelo tupi num memorando a um pernicioso general, foi o pobre e sonhador Quaresma no rumo do sanatório de Botafogo, restando apenas a irmã, o compadre italiano, a afilhada Olga e o igualmente excluído social Ricardo Coração dos Outros, numa clara alusão e simbolismo da rejeição pestilenta que idealistas e reais patriotas incorrem em um país de burocratas e aproveitadores, justamente como Lima Barreto percebia os funcionários e carreiristas da Velha República.
A crueldade com que despejaram Policarpo no fundo da insanidade que encerrava cada parede do hospício foi o suficiente para aquela alma pura e humilde, já humilhada em suficiente no emprego (demitido em pensão por invalidez) a realmente crer que louco estava naquele mar de podridão brasileira.
"(... )como esta nossa vida é variada e diversa, como ela é mais rica de aspectos tristes que de alegres, e como na variedade da vida a tristeza pode mais variar que a alegria e como que dá o próprio movimento da vida" (reflexão de Barreto sobre o fenômeno social da loucura e como ela está incutida em cada um de nós num manicômio privado)
Como é de característica do próprio escritor, detentor de forte idealismo e consciência social, especialmente no que tange aos vícios da sociedade excludente brasileira, Lima Barreto, na segunda parte da obra, transporta um desiludido e retraído Policarpo no rumo de uma chácara no interior fluminense, mais precisamente na vila de Curuzú, para ali fincar morada e curar no esquecimento as feridas que sua antiga vida e sonhos na capital o fizeram.
Lá começa ele um novo projeto, o de influenciar e criar uma geração de amantes da fértil terra brasileira. Para isso deseja ele plantar o maior tipo de culturas em sua pequena propriedade, adquirida como paga de volta por seu compadre. Ajudando-o na empreitada em Sossego, o nome que deu ao pequeno sítio, estão a irmã Adelaide e os empregados Anastácio, Felizardo e Mané Candeeiro, os dois últimos novos.
“Não chegava a entender nem seus gestos nem a sua agitação interna. Por que não seguira ele o caminho dos outros? Não se formara nem se fizera deputado? Era tão bonito... (Reflexões de Adelaide acerca da reclusão final de seu irmão)
“Fugindo” que estava ele justamente destas confabulações da irmã, foi Quaresma, proposital e inevitavelmente, na senda do mesmo destino inglório, solitário e sem esperanças na ética humana e brasileira, mesmo naquele escondido recôndito fluminense.
As intrigas, conchavos e corrupções políticas pareciam persegui-lo onde quer que estivesse (seduzindo inclusive seus amigos mais próximos), desmatando seus sonhos e utopias de bem fazer o coletivo tupiniquim, tão bendito por natureza e maldito pela desumanidade que o povoou desde os tempos das caravelas.
Aquela sua resguardada no campo não foi o suficiente para exilá-lo das mazelas brasileiras e vícios sociais que tanto mal o fizeram no Rio de Janeiro: Eram intrigas mesquinhas de políticos locais, pouca terra para o povo arar (um alerta à reforma agrária, já naquela época), o racismo da Velha República em privilegiar os imigrantes europeus e, por fim e sintetizando, a miséria em que se deixavam os campesinos locais, reduzidos à sua condição esquálida de existência.
Todos eles, em sua maioria, descendentes dos mesmos escravos libertos há poucas décadas antes. Gente nacional, gente briosa e carente que morria pouco a pouco como a alma de Policarpo Quaresma e de sua afilhada Olga, recém-casada e única igualmente compadecida destas agruras quando lá foi visita-lo. Olga e Ricardo, aliás, são as exceções à regra e seguem a sina de eterno idealismo de Policarpo: O músico é a arte pura, ingênua e criativa do brasileiro, a moça é a força da mulher a revoltar-se contra a opressão de seu tempo, do patriarcalismo.
Com o estouro das revoltas dissidentes de oficiais contra o autoritarismo florianista (Revolução Federalista e Revolta dos Marinheiros), parte então Quaresma, o major que nunca o foi, na senda de seu dever pátrio para um país inexistente e quase impossível, no auxílio cego a um déspota que quase nenhum apreço ou consideração tem por ele e seu amado Brasil ideal, bem como por nenhum de seus concidadãos.
Assustadoramente atual, a desdita de Policarpo Quaresma e a sua luta e o inevitável triste fim em desilusão de tombo em que sua fibra moral estava, muito mais alta do que os militares já ditatoriais, os carreiristas bajuladores e, por óbvio, a eterna oligarquia parasítica, mostraram a ele que nossa gente, além de corrupta, sabe ser bestial na guerra e destruidora da própria boa terra fértil.




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