Terra Sonâmbula - Monstruosamente belo e épico
- Júlio Moredo

- 10 de nov. de 2020
- 5 min de leitura
“Terra Sonâmbula” é um grito de dor de uma nação perdida em sua nascença. Uma Guerra de Independência gera uma pior, civil, que levaria morticínio a Moçambique por duas décadas, custando todo um futuro geracional

Neste contexto nos é apresentado a tríade de personagens centrais: o velho ranzinza e desesperançado Tuahir, Muidinga, um menino que ele resgatou enfermo e coxo de um campo de refugiados, e Kindzu, um misterioso jovem que se interconecta com eles quando Muidinga encontra, após vagarem sem rumo, um ônibus parcialmente queimado que lhes servirá de abrigo. Nela há uma maleta, um cadáver e uns cadernos com o diário do rapaz.
Lendo o relato todas as noites, a dupla entra na estória de vida de Kindzu em sua viagem marítima para fugir da miséria que afetou sua vila, família, amigos, valores e tudo o que ele conhecia.
Seu pai, Taímo, era um pescador com alma de artista, beberrão de vinho de palmeira. Ele era a pedra basilar da família tanto em suas ilusões factíveis como em sonhos vividos ao dormir, aqueles misteriosos e subjetivos, os surrealistas.
Esse costume e habilidade faz de Taímo um vidente inato, conseguindo prever o estourar repentino da guerra civil e o desaparecimento de seu caçula Junhinho (Junho de baptismo, em homenagem à data de independência nacional). Disfarçada de galinha, a criança é levada por guerrilheiros que o tomam por comida.
Ao morrer de desilusões, o chefe do clã vai sucumbindo ao luto e ao consolo do álcool.
Quando conhece a intenção de Kindzu, seu único filho restante, de se juntar aos naparamas, guerreiros pacifistas com poderes mágicos, Taímo jura perseguir para além da morte o paradeiro do filho, atormentando-o sempre que possível a fim de dissuadi-lo da perigosa e idealista missão.
A tentação de se somar em tão nobre causa clamou mais alto no garoto, partindo e deixando para trás sua mãe, o pastor Afonso, seu alfabetizador, e seu amigo hindu Surendra, além de todo o seu passado de alegrias inocentes da infância.
"A guerra é uma cobra que usa nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite já não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos." (Trecho do romance)
Kindzu acaba conversando com seu progenitor ao longo de toda a jornada, que ele faz de canoa, beirando o Índico. Taímo lhe aparece ao longo de todo o trajeto em devaneios acordados, em sonhos dormidos ou mesmo por intermédio de outras entidades, alertando para o seu encontro com o amor e a solidão de mãos dadas.
Em Matimaqui, o protagonista encontra rumores de um navio humanitário encalhado e cheio de provisões. Com os aldeões do local a mandá-lo embora, sua canoa é magicamente conduzida por sua imaginação (um duende) para o barco parado.
Nele está a bela Farida, crescida gêmea em terra onde isto era mau presságio. Isolada da irmã e testemunha da “aragem” da mãe para alimentar a terra, ela abandona sua gente até ser adotada por um casal de portugueses, que lhe entregará a ternura de uma nova mãe, a dócil senhora Virginia, e a violência, libido e violação de um padrasto, Romão, em clara metáfora da defloração da própria África pelo colonizador europeu.
“Pensava nas semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro.” (Kindzu pensando em Farida)
Em um regresso já maduro à casa de Virginia, a moça de facto acaba estuprada pelo lusitano. Atordoada, ela foge para sua aldeia natal carregando no ventre o fruto deste enlace não consentido. Quando o bebê nasce,
Farida rapidamente se desfaz dele, envergonhada do mulato produzido pelo abuso. A africana havia rompido involuntariamente sua inocência com o opressor, ficando impura aos olhos dos seus iguais, exilando-se então no navio humanitário, à vista de um farol, ambos representando, respectivamente, a esperança e a vida a pulsar.
Crescendo órfã, a criança é o símbolo do próprio Moçambique: uma terra crua sem poder sonhar com ternura. Forjado de uma violação covarde de um europeu, perdido entre passado e colocado em um presente inexistente, sem reconhecer seu próprio chão ou perspectivar futuro. Um lugar concebido pelo ódio racial.
Apaixonados, Kindzu promete descobrir o paradeiro de seu filho e de seu irmão Junhito. Seus resgates tornam-se vitais a um aspirante a Naparama, ansiando conquistar a paz às suas duas pátrias e criar o seu próprio mundo de mar e savana.
Ao mesmo tempo, a jornada de Muidinga-Tuahir ocorre em capítulos menores. Couto deixa claro que o diário reforça os laços de tio e sobrinho e, muitas vezes, de pai e filho” de ambos. Há também a evidente impressão de que o ônibus se move ao longo da estrada, mesmo parado e recostado à árvore canhoeira.
Este núcleo narrativo é um pano de fundo mais nacional, mostrando as mazelas bélicas deixadas ne os seus simbolismos, como nas passagens de Siqueleto, o “semeador de si próprio”, de Nhamataca, “criador do rio da paz”, das mulheres-gafanhotos, do elefante ferido e das hienas guardiãs. Ao final de um dia de vagar, os dois sempre retornam ao machimbombo (ônibus na gíria moçambicana – o texto tem muitos regionalismos).
Tuahir é a dureza da vida e a chama da realidade, mas também resguarda um espaço para ouvir as estórias do caderno, exprimindo suas suposições sobre elas. Ao interpretar sonhos de terceiros, como na passagem com Siqueleto, ele deixa no ar a dúvida se ainda sonha ou finge sonhar para sobreviver: "Nunca confies em alguém que não sabe mentir" (Tuahir a Muidinga, trecho do livro).
Já o núcleo mais largo, o de Kindzu, é de cariz mais universal, demonstrando a busca pelo conhecimento dele próprio e do outro, como na descoberta do que é amor e amar, com Farida e, em seguida, com a ardente Carolinda, esposa do administrador de Matimaqui.
“Depois, me empurrou com suavidade. Mas eu resisti, me demorando junto dela. Assim, de face em riste, ela me surgia exclusivamente única, triste como pétala depois da flor. Meu peito se encheu. Eu sei que em cada mulher a gente lembra outra, a que nem há. Mas Carolinda me entregava esta doce mentira, o impossível cálculo do amor: dois seres, um e um, somando o infinito. Se aproximou e me acariciou os braços, ali onde as cordas me doeram. As cinturas de suas mãos me afagavam, em suave arrependimento. Aquele momento confirmava: o melhor da vida é o que não-há-de vir.” (Trecho do romance – despedida de Kindzu a Carolinda)
O que herdar do passado, o que ser no futuro e o que viver no presente são os questionamentos de Kindzu, Muidinga, Farida, Surendra (convivendo com o preconceito contra indianos) e Carolinda. Tudo mostrado por meio do realismo fantástico, fazendo do leitor um viajante permeando entre fome, desejos e ilusões dos personagens.
Há também o lado analítico de Mia sobre as razões (ou não-razões) para tão estúpida sangria, que destruiu os sonhos de pessoas simples que estimavam inventar o quotidiano e as tradições de seus lares.
Sempre defendendo a nossa humanidade, Couto põe em perspectiva política também a tragédia do racismo, produto direto de não conseguirmos nos enxergar como iguais.
Por todo um amalgama riquíssimo de estilos, jogos de palavras e colorido descritivo, Terra Sonâmbula foi com toda justiça eleita como uma das maiores obras africanas, sendo um ensaio sobre o sonhar e perder sonhos. Leitura obrigatória para quem quer compreender a dor de si e a do outro em tempos em que a morte é a imperatriz dos destinos.




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