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Senhor das Moscas – William Golding

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 24 de mar. de 2023
  • 5 min de leitura

Atualizado: 21 de abr. de 2023

Espelho genial e perturbador de uma mini Terra onde seus habitantes, tenras crianças, transformarão num campo de batalha onde o vencedor se tornará senhor de oprimidos, de cadáveres e, por fim, de moscas.

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Provavelmente a obra de aventura que mescla suspense, tensão, ternura, medo e angústia mais perfeita da literatura, Senhor das Moscas é considerado um dos livros mais relevantes do século XX e um marco inaugural não só literário como filosófico para a corrente pós-moderna, movimento cultural que emergiu após o caos, os horrores e o morticínio da Segunda Guerra Mundial, onde a sociedade Ocidental viu no niilismo e na anarquia hedonista as soluções para uma humanidade capaz de criar uma bomba atômica e um holocausto.


O autor, o inglês William Golding, ele próprio combatente no conflito, inspirou-se em suas experiências in loco e à distância, observando o desenrolar da luta contra o nazifascismo, para forjar essa trama brutalmente genial ou genialmente brutal em que um grupo de dezenas de crianças britânicas sobreviventes à queda de um avião passam a viver numa sociedade improvisada numa ilha no meio do Oceano Pacífico. Todos à espera de salvamento e cheios de esperança, temor, admiração e inveja entre si mesmos.


Com esse enredo distópico, e sabendo que estaria mexendo com as entranhas da alma ao abordar o esfacelamento das almas puras de meninos, Golding inicia sua prosa apresentando-nos Ralph, intrépido, frio e calculista futuro líder do grupo perdido, e Porquinho (introduzido sem seu nome de batismo, com este apelido desagradável fazendo-o ser conhecido pelos demais por pura chacota), um simpático e inteligente gordinho que tenta de tudo para que o todos, em especial o primeiro, enxergue suas qualidades organizacionais e de planejamento, o que não acontece, ficando à mostra o desprezo pela sua pouca compleição física, corpo toscamente moldado e, por óbvio, o apelido que carregava da antiga escola.


“Caiu um silêncio entre os dois. Ralph, olhando para Porquinho, com mais compreensão, viu que ele estava magoado e arrasado. Ficou na dúvida entre os dois caminhos possíveis, o pedido de desculpas ou algum novo insulto.”


Tudo nos é contado com maestria narrativa, tendo William o dom de colocar feições, ações e caráteres de seus personagens rapidamente no imaginário do leitor, que, ao passo que vai acompanhando o narrar do desolamento tropical em que vivem, deixa também um quê de mistério e hostilidade à própria ilha, como se ela própria fosse um personagem, o que acaba prendendo o interlocutor desde as primeiras páginas.


Depois de se conhecerem melhor e de deixarem claro quem teria qual papel naquela tentativa de convivência, Ralph e Porquinho encontram uma grande concha marinha dentro da bela laguna da praia insular. Fazendo-a ressoar pelos quatro cantos da porção de terra a fim de convocar os demais sobreviventes do acidente, pouco a pouco vemos surgir das matas Jack, personagem de alma mais negra e dúbia de toda a história, e seus membros do grupo do Coral da antiga escola, além de outros rapazotes mais novos e menores.


Logo percebemos que há respeito mas suspeitas mútuas entre Ralph e Jack, o que nos leva a antever um desfecho terrível pela liderança daquele pequeno paraíso (depois transformado em inferno) entre aqueles pré-adolescentes que pouco a pouco vão abandonando os bons sentimentos da casta infância.


De forma razoável e até democrática fica acordado que Ralph liderará todo o grupo, com Jack, num gesto político de Ralph, ficando na chefia da caça e da guarda de animais maiores por meio de sua turma do Coral. Os demais meninos maiores, como o amalucado Simon, o traiçoeiro Roger, e os gêmeos ingênuos Sam e Eric (Samineric), além de Maurice e Henry, serviriam de interlocutores e ajudantes diretos destes junto aos demais, com Porquinho sendo escanteado como o planificador de alguns bons projetos.

“Fez uma pausa , depois de dar o seu recado. A assembleia sentia-se mais próxima da segurança com suas palavras. Gostavam dele, e agora o respeitavam. Espontaneamente começaram a bater palmas, e logo a plataforma foi tomada pelo som do aplauso. Ralph corou, olhando de um lado para a admiração declarada de Porquinho, e em seguida, do outro, para Jack, que sorria com ar superior e mostrava que também sabia bater palmas.”


A primeira atitude da, a princípio, confraria de jovens perdidos foi a de tentar o salvamento via uma grande fogueira no topo da ilha logo após reconhecerem o seu terreno. A atitude dá toda errada e a primeira contenda, com divisão de grupelhos, egos e funções, tem início na praia, onde os meninos ligados diretamente a Ralph começam a fazer um assentamento de dormitórios enquanto o Coral de Jack se especializa na caça (sugerindo um futuro exército ou mesmo milícias rebeldes).


“Jack assentiu com a cabeça, em concordância ou qualquer outra coisa, e por acordo tácito os dois deixaram o abrigo na direção da piscina em que todos preferiam mergulhar (...) E continuaram caminhando lado a lado, dois continentes de experiências e sentimentos incapazes de se comunicar.”


As coisas começam a pender para o mal (a principal mensagem de Golding, inclusive, é a de que o mal, o perverso triunfa) quando o primeiro navio dá mostras de fumaça na linha do horizonte, o que faz Ralph, Simon e Porquinho se exasperarem atrás da fogueira no topo da ilha, que estava aparentemente apagada.


Ao não conseguirem chegar a tempo de reacendê-la antes da embarcação sumir de vista, o trio se volta todo em ódio e ressentimento ao grupo caçador de Jack, responsável pelo mantimento das chamas e que, por negligência, priorizou o fogo para caçar porcos em detrimento de manter o fogaréu queimando para um possível resgate.


As descrições de emoções, gestos, posturas e olhares que o autor faz dessas personagens, aos poucos saindo da infância e, sem passar pela adolescência e maturidade, já se tornando bestas ferozes e instintivas, é perturbadora a quem a lê, esgarçando nossa condição frágil de seres humanos falhos e muito desejosos de expor nosso real ser, o lobo, a fera que temos escondida e que sociedades, leis, convenções e acordos sociais tácitos não permitem que exponhamos.


“A pedra, testemunha de um tempo absolutamente remoto, quicou na areia um metro e meio à direita de Henry antes de cair na água. Roger reuniu um punhado de pedras e começou a jogá-las. Ainda assim, havia um espaço ao redor de Henry, com uns cinco metros de diâmetro, que não se atrevia a alvejar. Ali, invisível mas forte, erguia-se o tabu da vida antiga. Em torno do garotinho acocorado havia a proteção de pais, escola, da polícia e da lei. O braço de Roger ainda era condicionado por uma civilização que desconhecia a sua existência e vinha caindo em ruínas.”


Uma guerra civil entre os meninos, com o claro entrechoque de lideranças do preocupado, altivo diligente e vaidoso Ralph e do violento, autoritário, selvagem e sociopata Jack se forma naquele pedaço de chão cercado por água, mini Terra em que seus habitantes, pela divisão do trabalho, luta de classes e desejos egoístas de poder por temor e anarquia, inebriante de prazer sem leis, transformarão num campo de batalha onde o vencedor se tornará senhor de oprimidos, de cadáveres e, por fim, de moscas como as expostas nas carcaças dos porcos mortos em caçadas.

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