Huasipungo - Jorge Icaza
- Júlio Moredo

- 7 de jun. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de jun. de 2023
Imersão na cultura andina. Seus colóquios e vocábulos mesclados com o do opressor europeu e a grande saga de Cuchitambo, síntese alegórica do que foi a colonização hispânica e independência de um vizinho latino-americano

Obra intrincada na alma, costumes, superstições, linguagens e sofrimentos dos antigos habitantes andinos ante a crueldade dos invasores, o branco europeu-ocidental, Huasipungo é tido como um marco inicial da literatura indigenista na América Espanhola.
Romance intenso e sensitivo, quase palpável por olfato, paladar, audição e visão do leitor, a obra máxima do equatoriano Jorge Icaza já traz seu propósito incutido no título – Husaipungo é uma palavra quíchua que se tornou gíria colonial para habitações, ou conjunto delas, de indígenas semi-escravizados em grandes latifúndios de conquistadores espanhóis e seus descendentes.
A trama, muito bem engendrada no início, se inicia em Quito, capital de um país recém-independente e posto em república oligarca e caudilhista. É lá que Alfonso Pereira, um membro da elite local que se encontra em dificuldades financeiras, sai à rua enraivecido e consternado pela violação da honra de sua filha, Blanca Pereira, por um cholo (mestiço de índio e branco, caboclo) que a engravidou.
Sem perceber, num golpe de destino ele se depara com seu tio, Julio Pereira, o qual está em dívida monetária, que lhe convida a ir a seu escritório de direito discutir novos projetos para uma antiga propriedade da família na cordilheira baixa, a sul da cidade, sob pena de cobrança e moratória da dívida.
Contrariado, Alfonso concorda em rumar com sua família para a fazenda a fim de remodelá-la, comandá-la de perto e fazer com que os locais se submetam com afinco às obras de melhorias de produção para a revenda a um industrial britânico, Mr. Chapy, numa clara alusão, muito bem construída, da própria situação secular do território sul-americano, sempre às mãos de interesses exteriores, escusos, assassinos e cruéis para com seu povo, "menos civilizado", clássico pensamento eugenista vigente na vira do século XIX para o XX.
É ali que a narrativa irá se desenvolver num pandemônio descritivo de intempéries e dissabores dos habitantes de Cuchitambo, vila, fazenda e adjacências herdadas pela família Pereira. Quando o neto de Alfonso nasce como um bastardo fruto da sedução desonrosa de sua filha, Icaza demonstra todo o horror que era o tratamento aos povos originários, cada um chamado por apelido ou xingamento mais pesado e desprezível que o outro.
Com a secura lactante da jovem mãe, Alfonso envia então seus cruéis Policarpio, mordomo e ajudante de ordens, e Rodríguez, capataz, atrás de amas de leite para o seu neto. Os dois são apersonificação da pequena autoridade que atorroriza osmais fracos, seus irmãios de raça, índios e mestiços, e adula seus superiores.
É a partir daí que o autor demonstra de maneira direta a opressão dos habitantes da região pelo seu “dono” — a seleção passou pela fertilidade, abundância de leite nas mamas e, claro, pela libido que esta causava ao “patrãozinhu” (o final “u” é como os incas diziam o “o” castelhano, em sotaque e submissão), o que fez a escolha recair à bela Cunshi, esposa de Andrés Chiliquinca, um dos caseiros mais prestativos e laboriosos da vila.
O problema é que Chiliquinca tinha outras benesses que não a sabujice filial que tinha com seus superiores: quando o nativo se esvai para diligências serros acima e se acidenta, fica angustiado a pensar na falta que a companheira lhe faria. Inválido e com a amada a dar de mamar para o neto sem pai de Alfonso, Andrés sofre nas mãos do violento Rodriguez ao que suporta por ternura e esperanças de rever a mulher de sua vida.
O tempo passa, a família de Alfonso não aguenta aquela vida de meios-luxos em meio à miséria e retorna à capital, deixando Pereira mais livre para pensar, laboral e sexualmente, em seus cholos, indígenas e povoado, o que o leva a propor, junto ao porco Cura, frade da zona, e a Jacinto Quintana, comissário político e puxa-saco da região, uma minga, isto é, trabalho em mutirão, coletivo, coercitivo e forçoso, a fim de erguer a estrada que conectará Cuchitambo ao resto do país e abrirá as portas do progresso exploratório inglês na zona.
A cena de embriaguez na qual os três planejam meticulosa e cruelmente as diligências e possíveis baixas com o trabalho pesado é asqueroso do início ao fim, começando pelos torpes insultos mútuos, passando pelo desprezo à vida dos habitantes e culminando no estupro e sedução de Juana, cônjuge de Quintana, sob ameaças e promessas de boa vida tanto de Alfonso como do pároco.
O que se vê a seguir é um descalabro desumano em que índios e mestiços são tratados como mulas de carga e braços brutos regados a álcool para drenar pântanos e arrastar morros, criando vales no meio do altiplano para glória, riqueza e deleite de um governo entreguista e, claro, do próprio oligarca da área, um corrupto e corrompido pelos poderes humanos e espirituais.
Apesar de muito bom em descrever paisagens, cheiros, sensações e sentimentos, Icaza parece perder a mão do romance a partir de sua metade, quando os acontecimentos da minga tornam-se importantes demais para se mostrar qualquer final digno a figuras do quilate de Chiliquinga, personagem tão promissor na trama e que desaparece de modo abrupto, simbólico e um pouco tedioso.
Talvez esse desvio do livro para as empreitadas, castigos e a consequente e inevitável revolta dos oprimidos, índios e cholos, por estopim das enchentes pela drenagem e alteração de curso dos rios de Cuchitambo, seja até intencional, uma real intenção do romancista de demonstrar os pavores coloniais e sua sanha por progresso rápido e arraigados nos braços, sangues, suores e lágrimas dos populares para lucro da elite agrária, urbana, eclesiástica e estrangeira nesse braço da antiga Nueva Granada Espanhola, depois Gran Colômbia e, por fim, o sofrido Equador.




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