O Vagabundo Filósofo – Maximo Gorki
- Júlio Moredo

- há 2 dias
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Parte da coletânea Os Vagabundos, a novela do célebre dramaturgo e romancista russo Gorki, grande mestre da prosa, invita a uma reflexão dura sobre a essência do homem social — sua predisposição ao egocentrismo, ao egoísmo, ao vício, ao prazer epicuriano, à luxúria e, principalmente, à mentira. Esta última como força-motriz dos laços que fazemos ao longo do nosso desenvolvimento num mundo repleto de gente igualmente volúvel, vil ou autocentrada a ponto de só utilizar os demais para engrandecer-se, ainda que com ocasionais benefícios ao próximo.
Exemplificando esta complexa teia, tão presente no advento da Modernidade pré-Segunda Revolução Industrial na sociedade russa (o próprio autor foi um ativista bolchevique), percebe-se no enredo ecos dos sofrimentos populares que desaguariam na ascensão de Lênin em 1917. Nesta trama temos Promtoff, personagem central e uma alegoria em forma de anti-herói.
A figura que introduz este inusual protagonista é o narrador, um andarilho anônimo sedento por abrigo e comida no outono da Rússia interiorana. Rejeitado por aldeões, cada um com hostilidade ou escusa mais esfarrapada (uma delas, uma senhora casada, o rejeita dizendo que o marido está em casa, sendo motivo de galhofa retórica e sarcasmo machista de Gorki). Essa sucessão de expulsões à beira-porta leva-o a um celeiro onde Promtoff já se estabelecera, recepcionando o novo camarada com perguntas e soluções para fumarem, comerem e conversarem até a madrugada.
Por irem ambos na mesma direção, Promtoff e o narrador viram então cúmplices e parceiros de viagens, fazendo o segundo de interlocutor às reflexões existenciais, estoicas e irônicas do primeiro. É a partir daí que a narrativa se desenrola de modo mais acelerado, com os capítulos se assomando à medida em que contam partes do passado deste misterioso viandante.
Carismático e bonachão, Promtoff relata suas aventuras, desventuras, peripécias, logros, paixões (viris porém fúteis), e muita, muita dissimulação para arrebatar corações femininos (volúveis e falsos, segundo ele) e ambições de compulsivos jogadores (mais fáceis de enganar em blefe, pela ganância). Tudo feito para demostrar o quanto a vida é frívola e efêmera em emoções, cabendo a nós agarrá-las para ter júbilo momentâneo: gratas memórias que perduram na eternidade da mente, guia para a paz de espírito pela plena consciência de que vivemos como desejávamos ter vivido.
“Como corrigir-me? Eu vivo em paz comigo mesmo. A razão e os sentimentos são em mim uma só coisa, e a palavra e a ação estão em mim em plena harmonia” (Capítulo X)
Com as mulheres, portanto, a coisa era extremamente carnal: Promtoff foi acusado, ainda adolescente, de flertar e seguir à alcova da esposa de um inspetor de colégio, acarretando na sua expulsão de casa, em São Petersburgo, por seu rigoroso pai. Dali em diante, ele foi para Rostov, em casa de uma tia, onde também conseguiu ser expelido por outro caso amoroso, desta vez com sua própria prima.
Na sequência, a sucessão de desventuradas aventuras com mulheres variadas, desde nobres, passando por aristocratas e chegando até a velhas matronas, cada uma em um ponto da vasta estepe russa, valem de pano de fundo para suas certezas: para além de vulgares e falsas (à exceção da matrona, que o viu como um espírito livre), as moças deram-lhe ganas de seguir viagem sendo quem é, não vendo motivos para labuta, labor ou trabalho, considerado inútil a quem deseja viver sua essência, aproveitando-se das fraquezas humanas, tão usadas para prejudicar os mais desfavorecidos, como ele.
Promtoff, assim, foi descobrindo como usar a seu favor a hipocrisia, citada por ele como benévola à ignorância se for mesclada pela mentira, tornando-se um bálsamo alimentador de sonhos destas pessoas simples e comuns.
Como um cínico à Diógenes junto a um bocado de Nietsche, montado em seu barril de convicções em mendicância voluntária, o bon-vivant vai ensinando seu colega o que viu, viveu, venceu e perdeu nas andanças por uma coletividade russa baseada em malfeitos e rejeição aos próprios princípios cristãos que tanto permearam-na.
Humor, carisma e sapiência (para o bem e o mal) desta persona nos deixa entusiasmados com a leitura, chegando a nos gerar certa torcida para que ele esteja correto e passe bem naquele cotidiano sem eira, beira, destino ou responsabilidades. Suas frases ferinas e acuradas, sempre a acusar aqueles que cruzaram seu caminho, numa autopiedade comedida e consciente, dão-no ainda mais destaque literário, sendo, para mim, um dos mais marcantes protagonistas que li.
Ao cabo, sua desonestidade o leva à orquestra de Moscou, a um jornal em Smolensk e ao posto de piedoso charlatão errante, dentre outras ocupações qualificadas ou não, burguesas ou proletárias, em vários pontos de seu país até se ver pronto a exercer a cômoda arte do ardil pedinte e mendicante já cheio de certezas sobre a dubiedade inerentemente humana, sua falta de compaixão e egoísmo vazio.
“Tudo reside nessa disposição; ela engendra os feitos, cria as ideias... e os ideais. E sabe o que é o ideal? Precisamente a muleta que se inverteu na época em que o homem se converteu em um animal ruim e se pôs a andar somente com as patas traseiras. Um dia, ao alçar à frente da terra viu o céu azul e ficou cego pela magnificência daquela claridade. Então disse em sua estultícia: ‘vou alcança-la’. E desde então andou com muletas, mercê das quais pôde sustentar-se direito até agora com suas patas traseiras.” (Capítulo XI)
Ao passo em que Promtoff prova aos leitores que Gorki era um gênio, ele igualmente deixa claro os ranços passados, quase autobiográficos, do autor em relação à burguesia, ao proselitismo religioso, sendo um bom exemplo de personagem talhado como vocal de seu criador.
A evolução da obra a torna o tipo de leitura difícil de esquecer. Enredado num contexto histórico específico, O Vagabundo Filósofo é parada obrigatória para o entendimento anímico que move a todos nós.




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