O Outro pé da sereia - Três culturas unidas por um gênio
- Júlio Moredo

- 10 de nov. de 2020
- 3 min de leitura
Meu romance favorito de Mia Couto, O outro pé da sereia é uma trama de transcendência metafísica, indo intercaladamente do Moçambique pós-guerra civil até o século XVI e as grandes navegações européias no rumo da colonização e evangelização dos gentios da África oriental, com suas crenças e fés no mágico, perdido em muito pela Crsitandade

O Outro Pé da Sereia, romance histórico do moçambicano Mia Couto, nos transporta a duas realidades temporais intercaladas em capítulos: uma, mais recente, baseada no Moçambique pós-guerra, no início do século XXI, e outra que viaja até meados do século XVI, em uma aventura marítima portuguesa entre Goa, o Índico e, finalmente, a própria África.
Estes dois núcleos se conectam brilhantemente pelo texto fluído e descritivo de Couto, sempre desmistificando com palavras o sentimento de uma nação ainda em construção, seus traumas, desejos, demandas e anseios.
Contendo dramatismo e realismo fantástico, a história se inicia após a personagem principal, Mwadia Malunga, uma jovem inteligente e mediúnica, ser interpelada por seu marido, Zero Madzero, no rancho do casal no lugarejo sugestivamente chamado de Antigamente.
Zero havia encontrado o que cria ser uma estrela. Mwadia comprova que a estrela é, na verdade, uma nave norte-americana. A jornada então dá a guinada sem volta em direção ao sobrenatural.
Ao enterrar a nave às margens do Zambeze (que também é, como o Índico, um personagem), o casal encontra os escritos, uma ossada e a imagem de uma santa perneta trazida pelos jesuítas a Moçambique para catequisar o Monomotapa, reino pagão no interior do continente.
O corpo e o diário pertenciam a Gonçalo da Silveira, chefe da expedição religiosa. Ao consultarem o xamã da zona, Lázaro Vivo (outro simbolismo), Malunga é incumbida de levar a imagem sacra de lá e encontrar um lugar de repouso a ela. A busca leva a moça a reencontrar sua terra natal, Vila Longe, um lugar semimorto e parado no tempo, cheio de traumas da colonização do país.
Muito similar a Macondo de Garcia Márquez (“Cem Anos de Solidão), a cidadela traz a Mwadia seus fantasmas passados, como a ausência de seu pai, morto na guerra de independência, o desejo libidinoso do padrasto goês, Jesustino, e a indiferença da mãe, Constança.
Ao mesmo tempo, personagens icônicos da decadência social do local nos são apresentados: O revoltado e filosófico barbeiro Arcanjo Mistura, o tristonho ex-pugilista Zeca Matambira e o tio oportunista da protagonista, Casuarino.
Cada elemento do decrescente vilarejo ganha, então, papel preponderante na trama. Constança, uma mulher sofrida e cheia de superstições, mantém os porta-retratos dos mortos alimentados, passeia com eles e os reverencia como vivos. Na verdade, na narrativa de Couto, poucos são os personagens em que se pode ter certeza de estarem vivos de facto.
Ao mesmo tempo em que Mwadia vai realizando sua epopeia com Nossa Senhora, a história de seu traslado da Ásia para a África é contada pelo diário de Silveira: o escravo Nsumdi e sua fixação nos pés da imagem, que ele e os demais escravos confundem com Kianda, uma deusa das águas; Sua amante viúva, a goesa Dia Kumari (a cena de amor destes nas águas índicas é lindíssima), e o atormentado padre Manuel Marques Antunes, um inconformado cristão que contesta a própria fé.
A partir deste momento o relato do narrador torna-se uma ponte entre as duas dimensões. Isso fica claro quando o casal Benjamin e Rosie chegam a Vila Longe no intuito de redescobrir suas origens.
O afro-americano e a brasileira adentram na cultura moçambicana para se conhecerem a si próprios. A beleza literária com que isto se dá é somente encontrada nos autores mais brilhantes, no qual o gênio de Mia Couto certamente se enquadra.
A jornada para alocar a santa, então, ganha mais força pela reflexão a respeito de quem somos nós, humanos, e nossa relação com a natureza e os espíritos existentes nas águas, montanhas, florestas e até em nossas feridas e dilemas da alma.
Apesar de enfocada nas mazelas de uma África escravizada, a história tem o poder de convidar qualquer um a refletir sua condição existencial e no planeta. O primor do livro emociona qualquer um que o leia.
Por este enlace entre a vida e a morte, a liberdade e a escravidão, o fraterno e o bruto, o pagão e o sacro, O Outro Pé da Sereia é, sem dúvida, um épico de cabeceira de qualquer amante de literatura de qualidade. Um dos melhores livros em língua portuguesa dos últimos anos.




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