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O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar – Yukio Mishima

Foto do escritor: Júlio Moredo
Júlio Moredo
8 de out.
4 min de leitura

Atualizado: 9 de out.

Drama nietzschiano em pleno Japão do Pós-Guerra


O romance do escritor nipônico Yukio Mishima, ele próprio alguém controverso e angustiado pelos rumos filosóficos e humanos de sua sociedade, é visceral e até dolorido de se ler. O autor é excepcional em suas descrições, a la Marcel Proust, dos detalhes de cada cena, cada cômodo e cada ambiente onde a tríade principal de personagens interage.


Nesse trio, que doravante se transforma num triângulo quase amoroso, sobressaem-se os muito bem construídos personagens de Fusako, mãe viúva, dedicada, bela, diligente e vaidosa; seu filho único, Noboru, é um curioso pré-adolescente que passou boa parte de sua vida sem a figura de um pai; e Ryuji, o marinheiro que alude ao título da obra e arriba, literalmente, às costas do litoral desta família rompida.


Sua narrativa tem início justamente numa descritiva e intensa cena sexual entre Fusako e Ryuji (talvez o maior protagonista dos três). Nela, Noboru espiona o casal por meio de uma fresta de madeira entre seu quarto e a suíte de sua mãe. Esta apresentação intensa de enredo e dinâmica marcam a leitura durante os capítulos seguintes, que dividem o livro em duas partes: verão e inverno, ambas as estações em que o marujo atraca em águas japonesas para um descanso.


Mishima mantém o ritmo intenso do enredo, nos transportando às circunstâncias em que mãe e filho conhecem o homem que mudaria seus destinos e perspectivas. O cargueiro que o traz, atracado para receber exportações no porto de Yokohama, aguarda ordens para levantar âncora e viajar horizonte adentro, mundo afora, como sempre fez Ryuji desde sua pobre e sofrida juventude.


O interesse imenso que Noburo nutre pelas coisas do mar e de seus grandes navios leva Fusako, que trabalha como importadora e revendedora de artigos de moda ocidentais, ao convés da embarcação para mostrar ao menino a rotina de quem vive embarcado. Quis o destino que fosse Ryuji, muito timidamente, o guia daquela visita. A atração entre viúva e nauta fica logo patente e latente ao leitor, compreendendo o porquê de eles terem terminado numa ardorosa noite de amor.


Em apenas dois dias de convivência, a então afeição atrativa torna-se o mais intenso e fugaz amor condensado em apaixonantes noites veraneias. Na viagem entre seus corpos à qual nos inserimos via linhas e estrofes do narrador, ficamos a conhecer a personalidade esquiva e solitária de Ryuji, bem como o coração carente de Fusako, desejosa de ver um modelo masculino na vida de Noboru, órfão paternal desde os oito anos.


A partir desta dinâmica, ficamos a conhecer a saga de Ryuji, que desde jovem foi ávido por vida numa casa cheia de morte. Ainda adolescente se alistou na academia da Marinha Mercante no intento de obter desprendimento e contato com a natureza, ansiando por glórias imateriais, vivências e sentires heroicos. Sua existência fora, pois, fazendo fortuna nos sete mares, metáfora dessa sede por reinvenção longe do aziago, traiçoeiro e prosaico chão firme.


Paradoxalmente, a longa vida a bordo dava-lhe saudades de coisas que poderia viver (ou ter vivido) na costa, nas praias, alegoria de algo entre o interior, seco e padrasto, e as infindas águas, imprevisíveis, estonteantes, indomadas e indomáveis que, a ele, pouco ou nada de triunfante proporcionaram.


Assim, ainda que temerário em atracar para sempre, aposentando-se da vida embarcado, aos poucos fica claro que Ryuji está agastado da profissão e perspectiva um ofício próximo ao mar porém em terra.


É neste contexto que o arrebatador namoro com Fusako coloca em perspectiva um paradigma ao marinheiro: era ela e Noburo motivos suficientes para se assentar no litoral, mudando de vida e iniciando laços novos, raízes mais profundas, por fora e por dentro, de seu ser? Já para aquela família alquebrada, era a oportunidade de se ter de novo uma figura paterna, tão cara à cultura japonesa.


O retorno de Ryuji no auge do inverno torna clara também as intenções e sentimentos daquela mãe resignada e correta, correspondendo com afeto e saudades ao regresso do amante. A decisão de não mais trabalhar dando voltas ao mundo é, então, finalmente tomada.


Durante essas passagens, as interações com Yoriko, uma atriz subcelebridade em Tóquio, cliente e confidente quase involuntária de Fusako, ganham contornos interessantíssimo (quase sociológicos). Essa “nova amiga” tenta dissuadi-la de se comprometer com aquele estranho, deixando constrangida e mesmo ofendida a orgulhosa viúva. Em seu ponto de vista, uma socialite como ela estava medindo sua paixão genuína por intermédio de sua fútil régua — Yoriko só havia se envolvido por oportunistas sem caráter, egoístas em seus desígnios. Já ela, ínclita pequena burguesa sem relacionamentos há anos, jamais estaria enganada sobre a índole do possível noivo e proveria novamente um pai para seu filho.  


Para Noburo, entretanto, a coisa é mais complexa: ele e mais cinco colegas de escola formaram um clube filosófico de cariz niilista que nega toda e qualquer trivialidade cotidiana e contratos civis ou sociais. A essência do grupo está em experenciar tudo, não negando sequer atos considerados atrozes, marginais e criminosos.


Segundo eles, a vida em sociedade é em si uma farsa e nossas limitações, tal e qual Nietsche e Freud diriam, vêm das amarras que adultos corrompidos nos impõem. Ao tomarem conhecimento do novo integrante na vida de Noboru, o líder de sua tribo, então, começa a julgar o velho lobo do mar por suas atitudes brandas, pacificadoras e covardes de transgredir na escala do existir, saindo de um impetuoso viajante para um acomodado e ordinário chefe de família.


A mim pareceu-me um laço definitivo no grande nó que torna esta uma obra única, tão fácil de se ler como de embrenhar-se nela, fazendo-nos refletir sobre o real propósito da condição humana. Seu desfecho é tão denso de significado quanto difícil de digerir à primeira vista, o que torna texto e intento de Mishima ainda mais desafiadores e, em si, surpreendentemente magistrais.


 

 

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