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O Grande Mentecapto - A loucura ingênua de um andarilho

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 10 de nov. de 2020
  • 3 min de leitura

Um passeio pelas quatro plagas de Minas Gerais através dos olhos cheios de vida e sandice de Geraldo Viramundo, um viajante carismático porém deslocado por sua maluquice inerente. Por isso mesmo a obra torna-se uma jornada de conhecimento interno (nós ao olharmos pra dentro, como se fôssemos Viramundo) e a braisleiríssima Minas do século XX

Uma das obras primas do romancista e poeta Fernando Sabino, O Grande Mentecapto trata das aventuras e desventuras de Geraldo Viramundo pelo seu universo, ou seja, a Minas Gerais do início do século XX.


Como muitos brasileiros da época, o menino nasce da união de imigrantes, tendo pai português, mãe italiana e muitos (doze) irmãos. Geraldo é o 13º e cresce em meio ao fascínio de Rio Acima e sua estrada de ferro.


O garoto esbanja confiança e lidera o bando de amigos nas mais variadas gincanas até o momento em que desafia a maria-fumaça no meio da linha férrea. Este feito o alavancou como prodígio entre a molecada e rendeu-lhe o primeiro beijo, da bela caipira Cremilda, mas também instiga o pequeno Pingolinha a tentar repetir a façanha, o que causa a sua morte.


Cheio de remorso, Geraldo cai na estrada e vai a Mariana visando ser padre para remir seus pecados. Sua vida nunca mais será a mesma, pois sua fortuna anda lado a lado com seu destino solitário.


Antes de se tornar “o” Viramundo das Gerais e mesmo após os seus notórios e notáveis feitos, o rapaz não parece de todo louco. Possui, sim, questões existenciais idênticas a alguém angustiado ou sem perspectivas, com sonhos descortinados e não mais realizáveis.

Por isso, Geraldo parece ser ingênuo muito mais do que perturbado mental, relegando prazeres e ambições mundanas por puro arrependimento e penitência.


Demonstra, por isso, profunda piedade cristã, algo muito brasileiro e, acima de tudo, mineiro, sendo o próprio personagem uma Minas Gerais personificada. Desta feita não é possível distinguir sua idade com o passar dos anos (no capítulo de Uberaba, com a tia de Sabino, essa impossibilidade fica clara).


O narrador faz-nos pegar um trem imaginário para as montanhas mineiras, não raro citando autores célebres do Espinhaço: Guimarães Rosa, Alphonsus Guimarães, Tomás Antônio Gonzaga (a amada platônica de Viramundo, Marília, não se chama assim à toa), além de mencionar outros ícones como Jorge Amado, Osvald Andrade, Dante e Cervantes.


Estas referências literárias tornam o texto, apesar da ótima narrativa e impecável erudição, um pouco prolixo. Fernando acaba, inclusive, se desculpando com o público por vomitar sapiência em demasia.


As passagens humorísticas, uma constante na obra, ficam um pouco dissimuladas, não se sabendo se o texto é de um piadista e mestre na simplicidade dramática ou de um douto professor universitário que obriga os seus “alunos” a terem referências de nomes consagrados das letras.


O ápice deste jogo dá-se durante a “Guerra Civil Mineira” (parte da Revolução de 1932). O conflito se encerra sem mais nem menos, escusando o escritor de maiores explicações senão um relato em espanhol do quixotesco ataque de Viramundo a um bando de ovelhas, algo tão cômico como exagerado.


A despeito destes aspectos ínfimos, a trama é muito bem elaborada, criativa e instiga o leitor à interação com o personagem central. As peripécias do folclórico Viramundo passam por entre veredas e serras, cidades históricas (sua estada religiosa em Congonhas do Campo é particularmente bela), a Zona da Mata, o Triângulo Mineiro, o Sul, o Jequitinhonha e, finalmente, Belo horizonte, local de nascimento do escritor.


A capital mineira presencia o desfecho do relato em um final político da epopeia andarilha do mentecapto, que dá ao livro um teor de crítica social.


Na ocasião, Geraldo se vê líder de uma horda de maltrapilhos formada por putas, loucos e mendigos. Sem controle dos acontecimentos e desejando dignidade aos seus pares, ele, com sua aura caridosa, vira um herói involuntário para clamar por justiça às autoridades pelos que sofrem com pobreza e miséria.


O protagonista chega neste ápice filosófico após uma construção gradual de sua ingênua liberdade e desapego a amarras fmateriais, muitas vezes ajudando o próximo sem nada exigir em troca (como nos casos de João Tocó em Tiradente, Barbeca em Barbacena ou a prostituta Marialva em Montes Claros).


Viramundo só não abre mão de sua dignidade, fazendo questão de recitar seu nome completo com orgulho quando tratado por seus inúmeros apelidos de viajante, em clara atitude de quem possui honra e honestidades inquebrantáveis.


Por tudo isso, concluo que o anti-herói de Sabino é mais casto do que doido varrido, conquistando com sua bondade corações de fantasmas penados a cavalos militares. Alguém que é quase sempre visto com carinho pelos que o cercam por nos fazer lembrar nossas fraquezas, humanidade e capacidade de gestos nobres.


Como talvez gostaria Fernando Sabino, encerro análise com um estrangeirismo apropriado ao nosso ídolo mineiro – Thieves and Beggars, Never Shall we Die!

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