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O Ano em que Pigafetta Completou a Circum-navegação - Independência poetizada de uma jovem nação

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 10 de nov. de 2020
  • 5 min de leitura

Romance de continuação e derradeiro de Luís Cardoso, que narra a independência difícil obtida por seu país, tudo entrelado em uma teia de personagens, civis e militares, que dão as caras durante o enredo para contribuir (ou não) para o feliz desfecho da liberdade timorense

Apesar de não ser considerado seu maior trabalho, O Ano em que Pigafetta Completou a Circum-navegações é sem dúvida o livro mais abrangente do timorense Luís Cardoso. O título remete a Antônio Pigafetta, cronista da viagem de volta ao Mundo de Fernão de Magalhães, que passou por Timor e por lá ficou.


Fincado em uma tríade familiar, Amadeu (pai), empresário, Julieta (mãe) e Carolina (filha), o enredo inicial trata do retorno do chefe da família em um périplo ao estrangeiro, onde passou por Áustria, EUA e Cingapura, de onde trouxe um par de sandálias para a filha.

É precisamente a sandália esquerda (a do coração, impulsiva) quem ganha voz para narrar a estória em tom ora onisciente ora em primeira pessoa. . Sua irmã, a sandália direita, é plácida e fala só o necessário. A princípio, o par não serve nos pés da destinatária. O apego da menina pelo presente as faz acompanhar o crescimento de Carolina em mulher.


Falta-me o ar (...). Sabe-se lá o que o futuro me reserva. Sabe-se lá se existe o futuro e o que é que se pode esperar do Tempo quando se tem um presente incerto em que a precariedade de espaço a que nos confinam é sufocante (Trecho do testemunho à clausura, uma alegoria do próprio estado de coisas no país)


A colônia vive de impasses desde a ocupação japonesa na Segunda Guerra, passando por uma efêmera independência suplantada pela invasão da Indonésia em 1975. Ao final do século XX ela é dividida entre independentistas e integracionistas. Amadeu é pela segunda frente sem, contudo, apagar a língua e a cultura portuguesa. O homem aloja às escondidas o líder-poeta independentista Raio de Luz, tornando-se benfeitor a idealistas pela autonomia do território.


Cheio de frases de efeito que regem passagens, Cardoso conta a dureza cotidiana dos tempos do salazarismo e da posterior ocupação de Jacarta. Há referências ao cinema ideológico da Guerra Fria, diversão, juntamente com os bailes, no Sporting Clube de Dili. Amadeu, então operador dos filmes, era visto como americanista por priorizar longas hollywoodianos.


Para quem leu o romance anterior do autor, Réquiem Para o Navegador Solitário, o desfecho da forte Catarina é contada pela sogra de Amadeu, Aurora, casada com Álvaro Monforte, militar desaparecido em naufrágio. Álvaro deu cabo de Malisera, o rebelde tribal que havia sequestrado Diogo, filho de Catarina. Como recompensa, a antiga herdade dos Sacramentos, a fazenda cafeeira Sacromonte, é repassada aos Monfortes e a criança é entregue à PIDE pelos usurpadores. Desta forma foi feita a riqueza da família de Julieta.


O corpo da heroína jazeu nos cafezais que ela refez, junto das memoria de seus gatos guardiões, de Alain Gerbaut, o Navegador Solitário para quem ela fez o réquiem, e Madalena, a concubina forçada de seu noivo. Todo este intrincado jogo de personagens traz à tona, por si, a belicosa trajetória pela qual passou Timor até sua autonomia, em 1999. A fazenda transformou-se em vila da região de Manumera, e novos personagens surgem para completar o drama.


Antônio Sikarno, nacionalista desiludido com malaes (portugueses), vai à herdade reivindicando seus direitos à Isadora, antiga amiga de Julieta que mora por lá. A moça era sua antiga paixão e a mais linda de toda Dili. Também viúva de véspera, a bailarina por vocação vira refém de Sikarno quando este a chantageia para não denunciar sua relação matrimonial com o mesmo Raio de Luz, ameaçando denunciá-la aos bapacks (indonésios) se não o aceitasse como amante.


Atoi, seu apelido, chega à aldeia com Pigafetta, o albino. Ambos conheceram-se em uma coluna de proscritos. Homossexual, o jovem fora disfarçado de português para poder estudar num seminário. Seu nome foi o pároco quem deu em honra do Pigafetta original.

Sikarno é dos poucos que toma conhecimento de sua história completa de vida. O diálogo entre ambos é muito importante para se entender a simbologia da navegação no romance, que também enfoca os barcos Lusitânia e Abiru, de ajuda humanitária e política à ilha.

Celibatário e efeminado de gestos e feições, Pigafetta de algum modo toca o coração destroçado de Antônio. Com o orgulho ferido por está-lo por um homem, ele corta a língua do pobre para que este não revelasse esta fraqueza.


O mudo, então, também vira escravo sexual do crápula, que o aloja à casa de Isadora e o veste com suas roupas em compulsão psicótica. Pigafetta é mesmo o mártir do enredo, passando por provações desde o internato com o “Pequeno Malisera”, seu cruel colega que era ninguém menos do que Diogo Sacramento Monteiro. A relação de ambos vira em amizade quando Diogo entra para a política e se torna o Raio de Luz, ex-locutor da rádio Nacional, amado por Isadora e invejado por Sakunar.


Quem não devia ter ficado muito satisfeito com tudo isso talvez fosse o seu querido filho Surafitun (Diogo), o contador de estrelas. Primeiro ficou refém do Malisera e depois do missionário. Talvez na infância enganou-se na contagem das estrelas. Faltava a mais furtiva, a da sorte (Trecho do romance).


Para além da Sandália Esquerda, há alguns sutis câmbios de narração numa espécie de jogo dramático onde o foco passa de mão em mão entre notáveis mulheres. Luís, aliás, lembra Clarice Lispector em erudição feminina. Carolina, até então ocultada pela imaturidade, ganha força como grande mulher que se está tornando ao ajudar o albino a reencontrar-se consigo próprio. Seu passado e futuro como herdeiro do cronista Pigafetta.


“O sussurro é a letra de todas as canções do mundo. Sussurra a Terra quando está com o cio. Sussurra o vento quando está com ânsias. Sussurram as mulheres e os homens quando ficam sós. Sussurram as mães quando amamentam os filhos. Sussurram os amantes quando se fundem num só corpo e sussurram os moribundos no leito de morte. Quem não entende isso é que não entende mesmo nada.” (Trecho do romance)


Nesta parte a narrativa passa pela contracultura, seus ícones musicais e o impacto dela na luta da FRETLIN, as forças independentistas do país. Muitas expressões locais, em tétum e bahasa, aparecem junto a lembranças deste período. Esse complexo amalgama humano dá um desfecho imprevisível à narrativa e mescla a glória da independência com a tragédia de reencontros e desencontros de pais, filhos, esposas e maridos apartados pela guerra. A dialógica entre objetos (navios, lampiões e sandálias) é avivada para demonstrar em animismo as esperanças e sonhos do povo maubere para cumprir sua própria circum-navegação.

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