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Nas montanhas da loucura - De deixar sem fôlego de medo

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 9 de dez. de 2020
  • 5 min de leitura

Atualizado: 12 de jan. de 2021

Mestre do suspense, Lovecraft cria em seu maior livro um cenário de pavor e mistério num continente que, a par dos oceânos e espaço instigam mais curiosidade e temor pelo desconhecido - A Antártica. O que se encontra lá pode explicar e também extinguir a vida.

Considerado o mais célebre trabalho longo do mestre do terror e suspense do século XX, o polêmico norte-americano H.P. Lovecraft, Nas Montanhas da Loucura é um passeio no rumo das sombras do ignoto que tanto ainda vaga pelos rincões mais remotos e inóspitos do nosso globo. Nele irá se escancarar as origens de muitas raças da mitologia do autor e sua trajetória.


A novela se passa em texto corrido, extremamente detalhado em paisagens e adjetivos cotidianos a ocorrências de uma longa viagem desde Boston, passando pelo canal do Panamá e Pacífico, aportando em Samoa e Tasmânia no rumo meridional glacial da Antártica. Narrado em primeira pessoa pelo geólogo-chefe da comitiva, o Dr. William Dyer, renomado professor da universidade de Arkham, a trama irá se desenrolar com o arribar dos grandes navios de pesquisa na baía de Victória, extremo leste do continente desabitado. O objetivo é ir mais a fundo no rumo do polo sul terrestre no verão antártico e, no caminho, ir escavando, mapeando e catalogando todos os fragmentos de rocha que explanem mais sobre o passado outrora verde e vivaz da Antártica para desvendar mais o próprio passado da Terra.


Entretanto, a grande problemática de toda a genial e cara exploração é o seu desmedido senso de ganância e renome, pouco a pouco tomando de assalto cada pesquisador de campo com seus mais novos maquinários da segunda Revolução Industrial, na primeira metade do século XX. Com magistral suspense, Lovecraft vai, através de seu personagem-interlocutor, descrevendo como a cobiça por descobertas vai conduzindo as rédeas deste desbravar que aos poucos vai restando claro que virá a desnudar um horror inconcebível e incompreensível.


Durante o avanço das pesquisas, Lake, chefe do departamento de biologia do grupo, encontrou em perfuração rasa um fragmento de ardósia em formato triangular, mista de origens e cheia de depressões e dobras características de uma antiga presença de vida naquela rocha. A descoberta o faz pedir autorização ao protagonista para deslocar parte do pessoal e maquinário para uma região mais a noroeste, onde se acreditava poder fazer descobertas ainda mais surpreendentes sobre a antiga fauna e flora de uma época seguida a cambriana.


De repente, via telégrafo, naquela ambiciosa exploração secundária, eis que as tais Montanhas da Loucura são encontradas e relatadas. A equipe mistura pavor, surpresa e júbilo em cada cientistas ao largo daquela região pouco conhecida: “22h05. No ar. Depois da nevasca, vimos a cadeia de montanhas à frente, maior do que qualquer outra vista. Pode se igualar ao Himalaia, considerando a altura do planalto. Latitude provável de 76º 15’, longitude 113º 10’ leste. Vai até onde o olho alcança para os dois lados. Desconfiança de dois cones fumegantes. Todos os picos são pretos e desprovidos de neve. A ventania que vem deles impede a navegação (...) ficamos sem fôlego em volta do aparelho. A imagem daquela montanha titânica a 1.100 quilômetros de distância inflamou nosso mais profundo sentimento de aventura (...)”


A partir daí o leitor é quase que tragado no rumo austral da neve antártica para acompanhar essa surpreendente e misteriosa descoberta, sempre guiada pela prosa amarrada e envolvente do autor, pois, na cordilheira mítica, os homens de Lake e Pabodie, o engenheiro-mecânico responsável pelas máquinas, rapidamente escavam uma caverna gigantesca e preservada em um de seus platôs, descobrindo um verdadeiro e aberrante museu a céu aberto da fauna e flora não só do passado da Antártica como da própria Terra.

Dentre as descobertas está um ser similar aos “Deuses Astronautas”, onde Lovecraft faz menção inclusive à sua própria mitologia, o monstro Cthulhu: Uma criatura com cabeça em forma de estrela-do-mar, corpo de barril, tentáculos ligados em longos braços e asas, mesmo aparentando ser de procedência aquática do cenozoico, que vão causando cada vez maior terror e curiosidade também no leitor, que busca a fuga do ordinário nas letras do autor.


As novidades são tão surpreendentes e aterradoras que o próprio geólogo, todo o seu time a sudeste e o próprio mundo exterior, por intermédio do navio Arkham, ficam tentados a se deslocar para lá a fim de estudar cada uma das rochas, fósseis e montes da região: “Se isso não é o ponto alto da expedição, não sei o que é. Estamos feitos cientificamente. Parabéns, Pabodie, pela perfuratriz que abriu a caverna. Agora o Arkham pode fazer o favor de repetir a descrição.”


O alarme de que o horror oculto está pouco a pouco se escancarando ante a ousadia dos pesquisadores é o modo como a matilha de cães siberianos reage quando se acerca dos mais de sete corpos fossilizados que são pouco a pouco retirados da caverna. Eles ladram, alucinam e se põem loucos de ódio e pavor daqueles ídolos misteriosos e quase extraterrenos. Um alerta sutil de Lovecraft de que os homens ali presente estão mais atentos à glória alcançada e já divulgada via telégrafo ao mundo do que propriamente com a ameaça velada que aqueles monstros dormentes poderiam revelar.


Esta perspectiva terrificante vai ficando cada vez mais clara quando os rádios de Dyer, do capitão Douglas, no navio, e na base intermediária no estreito de McMurdo, no mar de Ross, onde estava Pabodie, não conseguem mais contatos com o pessoal das investigações de Lake. O pior realmente acontece: Chegando-se de avião à região, num relato tão técnico/científico quanto assustador, os tripulantes do voo de socorro só encontram alguns dos fósseis dissecados, cadáveres de quase todo o agrupamento e muita destruição causada por uma nevasca forte e algo ainda mais horripilante, indecifrável senão pela própria intuição macabra de cada um no avião, quando sobrevoam os picos altíssimos, suas adjacências estranhamente simétricas e, claro, a caverna onde se descobriram os seres.


Todas as bases são desmontadas e a expedição parte no navio Arkham quase que imediatamente após a chegada da equipe de busca de Willliam, todos os tripulantes, especialmente Danforth, seu assistente, ficaram chocados e traumatizados com o que viram e sentiram nas montanhas gigantescas que serviram de túmulo aos companheiros descobridores das criaturas. A missão, agora, seria explicar e dissuadir novas empreitadas naquele rumo de esterilidade e morte. Para atingir este intento, a segunda parte desta densa novela se inicia com o dilema do protagonista em apelar para a revelação do que realmente foi presenciado no acampamento e adjacências, onde fora encontrada uma horripilante cidade pré-histórica e inumana, com pórticos, arquitetura de cinco pontas e vários prédios de formatos que desafiavam a lógica euclidiana ou mesmo os sonhos mais irreais dos quadros coloridos de Roderich. Os habitantes, batizados de Antigos, estariam na Terra desde que a lua se separou.


Se não forem dissuadidos, vão chegar ao núcleo antártico mais distante e derreter e perfurar até recuperar aquilo que pode dizimar o mundo que conhecemos. Portanto, enfim vou quebrar meu silêncio – mesmo sobre aquela derradeira coisa sem nome além das montanhas da loucura”. O leitor fica impelido a seguir página a página para saber o final deste sombrio todo.

 
 
 

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