Milagrário Pessoal - Aventuras através da língua de Camões
- Júlio Moredo

- 10 de nov. de 2020
- 4 min de leitura
Prazerosa viagem fantástica às culturas de língua portuguesa, Milagrário Pessoal é uma homenagem aos países lusófonos moldada pelo angolano José Eduardo Agualusa

O romance conta a saga de Iara, uma tradutora e professora de português de Lisboa. Ela está em busca dos autores virtuais de novos neologismos, que ela classifica e dicionariza.
Estes, porém, são misteriosos, sem origem ou emissário definidos.
Invitação ao conhecer, a trama coloca o antigo professor de Iara, um anarquista angolano com alma poética, convocado pela moça a ajudá-la a analisar este quebra-cabeças filólogo e de sabotagem linguística. O próprio título é uma brincadeira de Agualusa em relação a um caderno do Professor, no qual ele anota milagres que já presenciou. Uma ironia por sua doutrinação ateia.
Em uma dessas notas, há o relato dos feitos de Moises da Conceição e Quitubia. Na Angola do tempo da poderosa Nzinga, rainha dos jagas, dois brasileiros, um mulato e um índio, são retratadas por um dos seus companheiros, Domingos Ferreira da Assumpção, o Quitubia. O trio combateu a mítica guerreira e registrou novas palavras de um suposto filho de crocodilo com escrava, gerado nas águas do Cuanza (rio angolano). Seu nome, muito sugestivo, é Moisés da Conceição. Seu legado é preservada por Quitubia, que vive para preservá-lo em um diário que o velho mestre teve acesso.
Assim, de capítulo em capítulo alguma história maravilhosa de incremento léxico é reportada, no que o Professor chama de “paleontoneologismos” do falar lusitano, perdidos entre as relíquias do tempo e dos crioulos de base portuguesa. Sua explanação vai ao lirismo dos alquimistas, passa pelos gregos e persas para chegar às óperas de Wagner e concluir que uma “língua das aves” não só existe como é a de expressar mais perfeito.
Em uma linha cruzada, um pesquisador pernambucano sebastianista, Alexandre Anhanguera, tomou contacto com uma jornalista indo-portuguesa, Ele lhe ensina alguns termos secretos. Ao ler artigos de Mara, Iara vê similaridade com os neologismos do programa e decide delegar ao Professor, que a conhece, a missão de entrevistá-la para saber a origem dos termos.
Ouvindo falar de Anhanguera, o casal decide investigar sua relação com os termos. Avesso a estrangeirismos, conservador no falar e revolucionário no agir, o nordestino alojará a ambos em Olinda, exaltando o milagre de cada frase, cada soar vindo de uma amante, como a origem da sua coleção de vocábulos. Bernardo Anhanguera, tio do rapaz, era apaixonado pelo dizer da cafetina Magda-Mara, dona de um bordel da velha Recife e famosa em revitalizar homens desenganados e tristes.
“Magda acende os homens cantando versos obscenos. São canções muito antigas. A gente reconhece algumas palavras pelo coração, mesmo se nunca as escutou antes. Magda transmitiu essa arte a algumas das meninas, mas nenhuma a domina como ela.”
Ao chegarem a Pernambuco, aluna e docente debatem (e embatem-se) filosoficamente, enxergando a ampla gama de si próprios se transformar por meio dessa pesquisa linguista.
“Desamparinho, em minha opinião uma das mais belas palavras do crioulo cabo-verdiano, dá nome àquela hora feliz, ao final da tarde, quando o dia cede lugar à noite (...) Assim como nós criamos as línguas, também as línguas criam-nos a nós (...) Não custa atribuir a obstinada melancolia dos portugueses ao uso desregrado da palavra ‘saudade’(...) Já a famosa arrogância e otimismo dos angolanos poderia dever-se à insistência em termos como bué. No que respeita à alegria dos brasileiros, poderíamos talvez imputá-la a três palavras: mulato, bunda, carnaval.” (reflexões do Professor junto a Iara)
Essa epopeia (acadêmica, geográfica, histórica e antropológica), segue passeando pelos rincões onde a Última Flor do Lácio se estabeleceu. A leveza textual é a de um mestre ensinando um estudante querido. Sempre narrada em terceira pessoa.
“Quanto mais identidades partilhamos, mais singulares nos tornamos. Nós, os luandenses, somos grandemente singulares. Na sala de estar fala-se português, no quintal utiliza-se o quimbundo.” (trecho do romance)
Plácido Domingo, angolano de origem goesa que vive no Brasil, adiciona a estória de Fadário, professor de português timorense que resistiu corajosamente à proibição da língua pelos indonésios – declamando poesia em reuniões clandestinas.
“Aqueles que sabiam ler acompanhavam os versos num murmúrio, como se rezassem, e alguns ficaram a sabê-los de cor, através do coração. No término da sessão, as pessoas abraçavam-se a chorar” (descrição dos saraus de Fadário em Dili)
Esta caça-palavras levará a dupla numa aventura pela estrada do dizer, a senda da existência de pensamentos, sonhos, ideias e ilusões. As palavras viris de Magda-Mara e o diário dos Pássaros, vindos da África e sertão brasileiro, serão a chave para o enigma que trará mais questionamentos do que respostas, principalmente quando o diário dos pássaros é roubado.
Por meio da sensibilidade natural de sua prosa, Agualusa consolida o enredo na metade do livro, desvendando agruras passadas dos protagonistas, já numa relação de pai e filha.
O Professor sonhava ser padre. Através de um cônego são-tomense foi estudar em Roma.
Ao desistir da religião lutou na Guerra Civil Espanhola pelos republicanos, conhecendo o amor nas cartas que escrevia à noiva de um amigo de armas. A paixão corresponde-se, é bela e abreviada de forma trágica. Já Iara tem pelos homens um ressentimento geral por uma traição à época em que era modelo. Introspectiva, dura e geniosa com os que a cercam, a bela portuguesa se aquartelou em um casulo emocional desde então.
Passeando por ícones lusófonos da literatura, música e teatro, além de causos que vão desde Richard Burton, andarilho e poliglota inglês, e sua estada em uma comunidade luso-descendente do Quênia à participação indireta de Camilo Castelo Branco, escritor português que tomou conhecimento do linguajar das aves africanas por um degredado em Luanda.
Em passagens pontuais, o desenrolar da história escancara o drama e a alegria de ser quem se é, conquistando a alma dos pesquisadores e comprovando, de forma lírica, qual é a locomotiva que move corações, mentes e espíritos pela ferramenta mágica do idioma: o amor, maior “Milagrário Pessoal” que existe.




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