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As Cidades e as Serras - A derradeira homenagem ao simples

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 10 de nov. de 2020
  • 4 min de leitura

O "acerto de contas" de um dos maiores romancistas do século XIX com o seu Portugal agrário e atrasado em relação aos países vanguardistas da era das ciências.


Último romance de Eça de Queirós, ícone do realismo europeu, A Cidade e as Serras foi, inclusive, publicada pós a morte do escritor, em 1901.


Nele, o autor faz uma reflexão equilibrada entre a modernidade insalubre dos tempos de Belle Époque com o valor imaterial que o sossego rural oferece em meio ao caos urbano de uma Paris respirando progresso.


A narrativa é realizada em terceira pessoa, com José Fernandes fazendo as vezes de narrador da vida boêmia e burguesa de Jacinto Galião, o protagonista. Terceiro de seu nome, “Cintinho” provém de abastada família lusitana, apoiadora do absolutismo na Guerra Civil Portuguesa.


O clã imigrou para a França após a derrota do regime. Ironicamente foram eles morar na França, berço da república moderna. Rico e culto, o rapaz cresce como um bon vivant, chegando a bolar teorias positivistas para formular felicidade.

“Meu supercivilizado amigo compreendia que longe de armazéns servidos por três mil caixeiros e de mercados (...) o homem do século XIX não pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver” (Trecho do romance )


Após sua formatura em direito, Zé Fernandes sente saudades da vida pacata de Guiães, sua aldeia natal. A convite dos tios, ele retorna a Portugal e por lá fica, feliz, por sete anos.

Ao regressar, Fernandes é instado a se alojar no palacete dos Galiões, conhecido pela sua numeração: 202 da Avenida Champs Elysees. Lá se encontra um banho de erudição, da biblioteca a comidas das mais longínquas partes do globo.

Jacinto está mudado, desgastado física e animicamente, em um aborrecimento que beirava a exaustão da vida de aparências que levava. O rapaz, chamado pelo amigo de “Príncipe da Grã-Ventura”, era membro de clubes de esportes, política e um dos mais versáteis socialites da cidade.


A tecnologia também parece desafiá-lo. Equipado com o melhor encanamento, sua casa sofre uma pane hidráulica e elétrica, inundando diversos cômodos. Tendo recebido visitas e telegramas apenas para saber de estragos materiais, Galião começa a ver através da rasa alma de seu círculo social. Esse grupo de personagens é tão insignificante que não vale o esforço de nomeá-los, sendo basicamente abutres ávidos por opulência, dinheiro e bom gosto.


Condes, princesas, grão-duque da Áustria-Hungria, psicólogo feminista, banqueiro judeu, espíritas e empresários desfilam seus fins escusos na residência do português. Explorar diamantes na Birmânia, por exemplo, foi pauta de um jantar, em nítida alusão ao hipócrita “fardo do homem branco”, discurso vigente do imperialismo europeu.

Após presenciar uma compulsiva acumulação de livros (chegou a 30 mil!) e reformas no 202, José se apaixona por uma moça da noite. Madame Colombe o ama de maneira frívola mas o dá sensação de acolhida. Passado algumas semanas, porém, ela se esvai, deixando o homem à beira de um colapso nervoso regado a álcool para aplacar sua solidão. Nada escapa das dores de uma sociedade falsa, nem o coração dos amantes!


Curado do descaminho amoroso, Fernandes tenta estimular o depressivo amigo a condenar as mazelas da Civilização. Num passeio a Montmartre, com vista de toda Paris, Zé filosofa sobre o abismo social que consome as cidades, abrindo as feridas da pobreza, fazendo de pessoas meras máquinas para o labor de indústrias.


Se ao menos essa ilusão de cidade tornasse feliz a totalidade dos seres que a mantêm... mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria.(...) A tua Civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá, nesta amarga desarmonia social, se o capital se der ao trabalho” (José Fernandes a Jacinto)


Neste contexto vão se passando angustiantes meses e anos para Galião, padecendo da crueldade e vilania citadina. Após uma viagem ao resto da Europa, Fernandes encontra o companheiro aficionado em Schopenhauer – Jacinto havia se tornado um pessimista. Seu vazio existencial parece irremediável, caminhando rumo ao desespero. Chegando ao ponto de não sentir mais prazer em consumir algo “chique” ou “elaborado”.


“O vento bramava como num ermo serrano: e as vidraças tremiam, alagadas, sob as bátegas de chuva irada. Que dolorosa noite para os dez mil pobres que em Paris erram sem pão e sem lar! Na minha aldeia(...) cada pobre, sob o abrigo da sua telha-vã, com a sua panela atestada de couves, se agacha ao calor da lareira (...) Ah Portugal pequenino, que ainda és doce aos pequeninos!” (Trecho da obra)


Sob o pretexto de enterrar a ossada de seus avôs, Jacinto decide ir passar uma temporada em Tormes, sua nobre quinta ancestral. Ele leva consigo meia civilização do 202, por trem, em viagem lindamente retratada por Queirós, atravessando a Península Ibérica com riqueza de detalhes. Os trechos entre os Pirineus e Trás-os-Montes, via Medina e Salamanca, chegando à fronteira portuguesa, são belas homenagens em prosa a essa parte esquecida da Europa.


Ao avistar as montanhas do mítico Douro, o confronto moral que seguirá na alma de Jacinto é questão complexa que logo se resolve graças à beleza agreste da terra, à amável hospitalidade de seus empregados e à simplicidade dos hábitos, deliciosos à mesa e descontraídos nos afazeres.


Enterrado os restos dos seus antepassados, o protagonista, já enamorado por seu pedaço de chão, vai mesclando civilidade parisiense com a rudez dos gentios, tornando-se bem amado pelos pobres da região ao realizar benfeitorias e instruir crianças com sua vasta cultura. Jacinto parece encontrar a boa medida de paz que leva à felicidade humana ao sentir-se útil a terceiros, um “Dom Sebastião” regressado à sua gente.


Neste derradeiro romance, Eça de Queirós deseja dar uma palavra elogiosa ao seu pobre e atrasado Portugal ante a voracidade macabra das capitais do mundo. A Cidade e as Serras é uma invitação muito atual a pensar sobre como e com o quê necessitamos viver, bem como uma ácida crítica realista aos tempos de consumo desenfreado, de dissimulação e charlatanismo acadêmico, corporativo e religioso.


No texto de Eça a erudição é vasta em referências culturais, usada como arma para reforçar essa insana modernidade, obrigando o leitor a parar e estudar significados que o ele utiliza para enriquecer essa trama quase política.

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