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Gente Pobre – Fiódor Dostoiévski

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 6 de set. de 2022
  • 6 min de leitura

Atualizado: 12 de set. de 2022

Um jovem Dostoiévski traz em seu primeiro romance a prévia do mergulho que faria pelas correntezas e redemoinhos da alma

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Romance inicial que fez deslanchar o nome de Dostoiévski na forte literatura realista russa do, Gente Pobre é um acutilante e visceral mergulho na mente humana em seu desespero maior: o de se estar só e desamparado financeira e, por isso, animicamente. Fiódor o escreveu com apenas 24 anos e, já nesta tenra idade, nos demonstrava sua dolorosa genialidade de descrever sentimentos tão magistralmente quanto paisagens, climas e alegorias imagéticas e imaginativas de seus personagens.


A obra é centrada na relação de cumplicidade, afeto, amizade e comiseração entre Varvara Várienka, sofrida jovem costureira que ficou órfã ainda na adolescência, e o redator e escrivão Makar Dievuchkin, homem simples de 47 anos, muito carente e recluso.


Ambos se veem pouco e em locais combinados pelas ruas periféricas da São Petersburgo czarista do século XIX. A interação, entretanto, se dá principalmente por meio de cartas, onde ambos colocam suas vivências refletidas naquelas mensagens sombrias de penúria sentimental e material que trocam um com o outro.


Por vezes, vemos propositalmente uma relação de pai e filha, pela idade, por outras algo como uma chispa de paixão amorosa, de homem e mulher, para sempre cairmos na crua relação puramente humana, onde um tenta suprir o outro.


A cada missiva redigida e respondida pelo casal, o autor nos vai conduzindo mais a fundo para dentro da cabeça e coração daquele par de improváveis cúmplices. As agruras passadas de Varvara são postas de modo desnudo aos olhos frenéticos do leitor logo no começo do livro.


As reações dúbias de Makar e alguns lampejos de embaraço de Várienka ilustram bem o cenário de complexa relação que se apresenta entre aqueles dois pobres abandonados, combinando possessão, ciúmes disfarçados e carícias forçadas.


Tudo isso para não deixar que quem abra essa grande obra a largue até terminá-la. A sensação, em síntese, que Gente Pobre nos dá é justamente essa – a de um prazeroso autoflagelo em que nos transportamos para cada um dos protagonistas, variando de carta para carta. Aos poucos o leitor vai se identificando com as reações destes interlocutores, sempre tentando mesclar afeição e manipulação em suas correspondências.


A história trágica e insalubre da quebrantada Varvara nos é destrinchada de modo cruelmente bonito. Nascida em família de servos médios de um conde, típico na sociedade feudal e escravagista da Rússia monárquica, vivia ela feliz na tranquilidade ingênua e simplória em que os pais e sua ama-seca a mantinham.


Decidido a mudar de vida juntando economias para trabalho e estudos da filha em Petersburgo, seu pai muda a família para essa grande e rude urbe. As dívidas vão se acumulando junto aos insucessos e ao marasmo depressivo que Várienka e seus pais encontram na capital imperial.


Seu pai acaba morrendo de fadiga e desgosto, deixando sua mãe desamparada e com credores sobre tudo o que possuíam, o que as leva a viver na residência de uma prima distante, a falsa e sádica Anna Fiódorovna. Mãe e filha, então, começam a costurar para uma magra clientela enquanto aguentavam as humilhações da anfitriã. Por lá, como se fosse numa pensão, havia também Sacha, uma preferida de Fiódorovna criada por ela em nome de outro primo, e Piotr Pokróvsky, um rapaz enfermiço, culto e inteligente que leciona, em troca de morada, para afilhada de Anna.


Ele é o mais tocante e fulcral personagem secundário da primeira metade da narrativa. Com ele Várienka descobre o que é respeito ao próximo, ao mestre e ao conhecimento, além de também começar a se enxergar como uma mulher que, aos quinze anos, se enamora e atrai-se pela figura melancólica e doentia daquele precoce professor. Professor este que antes ela fazia questão de atormentar com picardias durante as lições.

“Lembro-me de que corei até as orelhas e quase com lágrima nos olhos comecei a pedir que se acalmasse e não se ofendesse com nossas travessuras estúpidas, mas ele fechou o livro, não terminou a aula e foi para o seu quarto. Berrei o dia inteiro de arrependimento. A ideia de que nós, crianças, com nossa crueldade, o leváramos às lágrimas me era insuportável (...) obrigamos à força que ele, um desgraçado, um pobre, se lembrasse de sua sina atroz! Fiquei a noite inteira sem dormir de desgosto, de tristeza, de arrependimento. Dizem que o arrependimento alivia a alma; Pelo contrário. Não sei como o amor-próprio se imiscuiu em meu pesar. Não queria mais ser considerada uma criança. Já tinha então quinze anos.” (a penitência de Varvara, Pg. 38)


Esse vagaroso enamorar é muito bem desenvolvido e narrado pelo escritor, dando aos mais perspicazes leitores a clara ideia de que se trata de uma amizade em refinamento encaminhado para o amor juvenil. Varienka, pois, passa a tentar desfazer suas sevícias para com ele agradando-o, moldando para si uma dívida moral e envergonhada e, inconscientemente, transformando esse débito em um verdadeiro bem-querer para com Piotr.


O desfecho desse afeto, juntamente aquando da aparição do pai de Pokróvsky, um bêbado errante, viúvo de primeiras bodas e totalmente dominado por uma segunda mulher, acaba por machucar pela primeira vez o coração tanto de Varvara como de quem a lê, já que o querido rapaz cai mortalmente doente pouco depois de a relação deles se estreitar em pura ternura.


Acompanhando sua agonia, seus delírios e sofrimentos, é Varienka quem abre as janelas para que seu amado pudesse ver pela última vez a luz vital. Esta foi cinza e fria como o outono russo e combinava com sua caminhada terrena, cheia de aflições e desgostos.


Após a morte de seu melhor amigo, seguida de perto pelo falecimento, por fragilidade, inanição e esgotamento, de sua própria mãe, a moça muda-se para o apartamento lúgubre e escuro onde, de frente para a janela de Dievuchkin, costura para angariar suas parcas despesas com uma assistente, Fedora.


“Oh, foi uma época triste e alegre, tudo junto; e agora sinto-me triste e alegre ao recordá-la. As lembranças, alegres ou amargas, sempre são aflitivas; Pelo menos para mim; Mas mesmo essa aflição é doce. E quando o coração fica pesado, doído, pesaroso, triste, as lembranças o refrescam e avivam, como gotas de orvalho numa noite úmida, depois de um dia triste, refrescam e avivam a flor pálida e murcha que queimou com o calor diurno.” (Reflexões de Varvara, pg. 48)


Por ser mais velho que Anna e mais marcado pelas mazelas materiais do mundo, Makar, o outro protagonista, sabe jogar mais com os sentimentos correspondidos ou não que enxerga em sua nova amiga e admiradora, sempre pondo na conversa questões sobre as frustrações pessoais que teve em sua carreira e também da vileza das pessoas que o cercaram e exploraram suas limitações e fragilidades, boicotando-o de maneira desonesta em suas possíveis e legítimas ascensões profissionais.


As descrições que ele faz a ela, tentando dissimular a pobreza em que vive, bem nos fundos de uma cozinha de pensão, somadas com a maneira de contar em prosa os sofreres de seus vizinhos, cada um mais excluído que o outro, dão conta exatamente de seu irremediável amargor.


“Meu pedaço de pão é meu; Verdade que é um pedaço simples, por vezes até duro; Mas foi ganho com o meu trabalho (...) Sei que o que faço não é muito, sou um amanuense; Mas, mesmo assim, me orgulho; Trabalho, derramo meu suor. E o que é que tem se sou amanuense? Por acaso é pecado ser amanuense? ‘Ele é amanuense!’; ‘Esse rato de funcionário é um amanuense!’; O que isso tem de tão desonrado? Minha caligrafia é tão nítida, boa, agradável de ver e Sua Excelência está satisfeito (...) Bem, não tenho estilo, eu mesmo sei que não tenho esse maldito, por isso não avancei no serviço, e mesmo agora, minha cara, escrevo-lhe sem malícia, sem pompa, conforme as ideias que trago no coração...” (Carta de Makar a Varvara, 12 de junho)


Neste ponto, Fiódor nos deixa claro o quanto a vida pode ser dura com seus viventes que não sabem lidar, ao longo dos anos, com fraquezas práticas e emocionais, transformando tudo num ciclo vicioso de vazio sentimental condensado por uma nulidade de realizações pessoais, familiares e coletivas, conduzindo pessoas ao desespero da miséria, material e espiritual.


Essas abordagens estão explicitamente subentendidas, se é que me entendem, em cada correspondência trocada por este casal desesperançado, uma pelo amadurecimento solitário e forçosamente precoce, outro por suas frustrações e falhas, atitudes erráticas ou covardia envenenada, por ação ou inação.


O que os une, apesar de tudo, é a necessidade de amar e ser amado, de ser luz de amparo amoroso a iluminar o outro na escuridão do cotidiano estoicamente suportado por ambos, tão excluídos como ridicularizados por colegas, falsos amigos e agiotas, que os sugam para colocá-los à beira da mendicância numa crueldade não da pobreza, mas da indignidade humana.


Tudo isso nos é ilustrado e pintado por Dostoiévski como se este livro fosse um quadro triste, cinza e mesmo assim. Uma pintura tracejada e pavimentada em letras por um dos maiores magos da literatura e filosofia mundial.

 
 
 

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