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Incidente em Antares - O Brasil registrado pelo humor trágico

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 5 de out. de 2020
  • 6 min de leitura

Atualizado: 14 de out. de 2020

Progresso e conservadorismo, tradição e rebeldia, pobres e ricos, democracia e ditadura, vida e morte fazem de Incidente em Antares um romance-ensaio na sua essência




Forjada de modo inusitado por Érico Veríssimo, Incidente em Antares veio à luz em 1971, nos EUA, quando o escritor deparou-se com uma greve de coveiros. A ideia alavancou um livro onde os mortos não partem por abandono, mesclando realismo fantástico, pós-modernismo e regionalismo. Nascia a trama passada na fictícia Antares, aldeia da região das Missões Jesuíticas, no vale do rio Uruguai.


Através de um narrador não onisciente, a história começa com Francisco Vacariano, um gaúcho típico, pioneiro daquelas coxilhas que viraram fazenda, e de fazenda vila e cidade. No batismo, “Chico Vaca” chamou o então Povinho da Caveira de Antares a conselho de um naturalista francês, em honra a uma constelação homônima. Para o estanceiro, entretanto, soava mais como “lugar de muitas antas”.


Anacleto Campolargo, seu futuro arqui-inimigo, veio a comprar latifúndios por lá pouco depois. Natural de Uruguaiana, o novo poderoso logo se estranha com Vacariano. Eis a rixa familiar típica em Verissimo, também presente em seu célebre O Tempo e o Vento.


Odiando-se de modo bem sulista, onde tudo se resolve à peleja e à faca, os clãs vão belicosamente atravessando o século XIX, passando pela Revolução Farroupilha, a Guerra do Paraguai, em que cada filho dos rivais reivindicava a morte de Solano López, a Proclamação da República e a chegada da eletricidade. Na altura, cada família seguiu um lado da política, com os Vacarianos pelos monarquista e os Campolargos pelos republicanos. A luta pela primazia gera atrocidades brutais cometidas por cada prole durante uma guerra civil municipal.


Todo esse contexto é apresentado em pequenos capítulos. Benjamin e Xisto, os varões remanescentes, representam seus pais em novas disputas que, com o tempo, ficaram mais culturais. De times de futebol a carros, de cargos públicos a associações os sobrenomes se digladiavam pelo poder dos teres e saberes antarenses.


As décadas passavam e as novas gerações caudilhas já não viam propósito em tamanha animosidade. No inicio dos anos 30, ninguém menos que Getúlio Vargas intervém para dar cabo na briga em reunião com Benjamin Campolargo e Xisto Vacariano. “Se não quiserem fazer as pazes em atenção ao meu pai ou a mim, reconciliem-se então pelo amor ao Rio Grande” (trecho 22, parte 1).


O plácido Zózimo e o intrépido Tibério, herdeiros das dinastias, seguiram o armistício de seus pais. Tibério vai para a carreira política, se aproximando de Getúlio quando este é aclamado presidente. O enredo, então, entrelaçar-se com a história brasileira em questões como corrupção, patriarcalismo, burocracia e racismo. Avizinhava-se o Estado Novo e o nazismo.


Personagem mais emblemático dessa fase, Tibério se enamora da vida urbana do Rio de Janeiro, de seus meandros políticos, crescendo nele o vício pelo poder. Ao perceber a derrocada do “Baixinho” (Getúlio), porém, ele deixa a esfera do governo e volta à sua estância. Nos negócios e no amor o Vacariano também reserva surpresas jocosas e eróticas, com negócios escusos com o chinês “Jango Lins” e paixões lascivas com Cleo, sua amante fixa.


O suicídio de Getúlio marca de modo lúdico uma passagem, onde os casais Tibério-Briolanja e Zózimo-Quitéria, já grandes amigos, discorrem sobre o futuro da nação e o propósito vital.


A morte, pauta central, é novamente discorrida quando o jornal A Verdade soou as novas do Rio de Janeiro, e “Tibé Vaca” e “Quita Campo”, companheiros de prosa e chimarrão, perspectivavam o funesto destino de homens e nações.


“O sol nasce todos os dias por detrás do cemitério de Antares e ao anoitecer se põe na Argentina (...) Tibério pensou nas alvoradas de sua vida, e por alguns instantes lhe passaram pela mente as imagens de seu pai, de seus irmãos e amigos mortos que estavam sepultados lá em cima e que não podiam ver mais a luz.” (trecho 44, parte 1)


“Somos todos uns sentimentais, Tibé. Um povo como o nosso adora as meias soluções (...) Nada é sério mesmo neste país. Quando Getúlio adota uma solução final, ir-remediável, todos perdem a cabeça. Não sei se será um bem ou um mal.” (trecho 45, parte 1).


Chega a “era Bossa Nova” e Kubitscheck inicia a construção de Brasília. O propósito da trama se clarifica num ensaio sobre a roda infalível do tempo, da finitude da vida. Zózimo e Quitéria desnudam as sanhas políticas e a teimosia rançosa de Tibério para convencê-lo disto. E é de modo tocante que a conversa transcorre pela fraternidade que os une.


“Qual, Tibé! Não adianta a gente querer tapar o sol com a peneira. Nosso tempo passou. Estamos velhos e atrasados (...) É que tenho pouco tempo de vida pela frente. Depois dessas transfusões todas, quando o sangue que me corre nas veias não é mais o meu (...) acho que muitas outras pessoas estão falando agora pela minha boca.” (Zózimo Campolargo em seu leito de morte, trecho 50, parte 1).


“Uma das coisas que aprendi com a velhice foi fazer as pazes com a minha morte. Quando a Moura Torta bater na minha porta eu digo ‘entre, comadre’, tome um mate, ah, não quer? Então vamos embora.’” (Quitéria a Tibério e Zózimo no hospital, trecho 51, parte 1).


Em paralelo, só havia uma coisa que Tibé odiava mais do que pensar em sua morte: O PTB, a esquerda brasileira e seus ocultos patrocinadores - de Vargas, seu ex-amigo, a Jango e Brizola, seus herdeiros. Com a renúncia de Jânio ficou evidente para ele uma ameaça “comunista”.


Nessa época, uma companhia acadêmica de sociologia, sob chefia do excêntrico professor Martim Francisco Terra, chega a Antares vinda de Porto Alegre. Xistinho Vacariano, neto de Tibério, é um dos alunos da equipe. A meta da excursão é descobrir singularidades culturais do povo gaúcho da fronteira.


Durante a estada, alguns populares acusam os estudantes de socialistas, outros de imperialistas dos EUA e de aproveitadores da intimidade alheia. Fato é que o estudo foi publicado e cognominou Antares de “Ribeira”. Sua leitura causou furor e despeito entre políticos, aristocratas e burgueses locais, que acusavam a pesquisa de mentirosa.


O diário que Martim Terra escreve sobre impressões da vila formam a antecâmara para a segunda parte da obra: O Incidente em si. Divertido, intimista e até libidinoso, o livreto mostra amiúdo o povoado de imigrantes alemães, italianos e eslavos, políticos, jornalistas, músicos, padres, filósofos e macumbeiros do município.


A genialidade com que o testemunho é encadeado, em crônicas sobre os cidadãos, é proporcional à criatividade e riqueza com que Veríssimo edifica personagens secundários em perfis jornalísticos. Érico chega ao cume da ousadia quando se descreve, aos olhos de Quitéria, num dos trechos sobre opiniões literárias da matriarca, entrevistada pelo professor.

O leitor se assustará com a semelhança que Antares tem com o Brasil atual, onde o embate maniqueísta de esquerda x direita é uma constante. A situação naqueles pampas é idêntica à luta de classes e de costumes que se observa nos nossos dias, onde populistas de ambas as correntes galvanizam o povo com promessas fáceis.


Em breve o Brizola vem fazer um comício aqui, só de pensar nisso estremeço (...) vai falar a favor da reforma agrária. Pessoalmente nada tenho contra essas ideias. Mas não esqueça que quem manda aqui são ainda os estanceiros, o patriciado rural.” (Padre Pedro-Paulo, “O Padre Vermelho” em bate-papo com Francisco Martim Terra, trecho 79, parte 1).


O diálogo entre o sociólogo e o padre, aliás, é uma das passagens mais belas da narrativa, com a filosofia existencialista da razão da vida vindo à tona de modo brilhante.


Democracia qual nada, governador! O que temos no Brasil é uma merdocracia! (...) Velhos e velhas, debruçados nas janelas de suas casas, mostravam nas faces o pavor de antigas revoluções, a lembrança de imemoriais degolamentos (...).” (Tibério falando com o governador do Rio Grande e o povo a ver a greve geral, trecho 1, parte 2).


Greve Geral e reação em cadeia: o pior dos cenários. Todos os trabalhadores cruzaram os braços. O prefeito Vivaldino, viciado em flores, mal sabia o que fazer, ocultando o ódio aos autores do piquete tentando aproximá-los dos patrões: o americano Jefferson Monroe, o francês Duplessis e o chinês Chang (o “Jango Lins”).Tudo infrutífero!


Horas depois da convulsão social, parte deste mundo Quitéria Campolargo, vítima de infarto pela “ameaça vermelha”. Falecia uma senhora forte, politizada e tão reacionária quanto caridosa. No mesmo dia morrem subitamente mais seis pessoas: Barcelona, o sapateiro espanhol anarquista; João Paz, ativista político; Cícero Branco, advogado; Pudim de Cachaça, bêbado; Erotíldes, indigente ex-prostituta e Menandro Olinda, atormentado pianista. Uns morreram de doença, outros de repente, torturados ou suicidados.


Nenhum coveiro aceita enterrá-los pela paralisação, chefiada por Geminiano Ramos, voz dos explorados e famintos. Indignados e obrigados à custódia dos sindicalistas, os mortos, a despeito das diferenças, recusam-se a subir à vida celeste e numa sexta-feira 13 atormentarão Antares numa guerrilha sobrenatural contra seus hipócritas e podres cidadãos até o enterro.


Está desenhado o clímax tardio do livro. Uma obra prima que recompensa quem a lê pela problemática que traz numa teia dialógica, unindo historiografia ao paranormal e enriquecida por personagens fortes e bem construídos. Progresso e conservadorismo, tradição e rebeldia, pobres e ricos, democracia e ditadura, vida e morte fazem de Incidente em Antares um romance-ensaio na sua essência, a mescla estilística definitiva na literatura brasileira.

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