Coração das trevas - Repugnância pelo que é capaz o homem
- Júlio Moredo

- 24 de jan. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 26 de jan. de 2021
Denúncia em moldes de romance forjam este clássico num períodos em que o Ocidente subjulgou um continente em nome da hipocrisia civilizacional.
Coração das trevas é a obra mais icônica do escritor anglo-polonês Joseph Conrad e relata, em forma de diário de bordo oral, as agruras, desventuras e descobertas terríveis que Charles Marlow, um experiente enamorado do mar e piloto náutico, passa durante sua depressiva estada na África, mais precisamente na bacia do rio Congo, no centro-oeste do continente, ainda virgem naquelas últimas décadas do século XIX.

Se há um antídoto literário para os poemas e ensaios de autores desta época, a do mordaz neocolonialismo europeu, como as hipocrisias retóricas do “bom selvagem” de Rudyard Kipling, é este testemunho romanceado do capitão Marlow e o que ele viu, sentiu e sofreu ao encarar a gigantesca floresta congolesa e a ganância, a hipocrisia, a maldade e falsidade dos europeus, sendo eles ingleses, franceses, holandeses, suecos, alemães ou russos, durante a exploração do interior do território à caça de marfim, diamantes e matanças de seu gentio sempre sob a escusa da “civilidade do homem branco”.
Desta feita, o livro é, por assim dizer, uma denúncia em prosa que se inicia nas águas já alargadas do estuário do Tâmisa, rio simbólico do poderio e ambição desmedidos que a Europa vivia naquela época de segunda Revolução Industrial. Por lá Morlow inicia seu relato ao pé dos companheiros de bordo sobre as suas motivações e como chegou ao Congo para trabalhar para uma empresa de importação normanda.
Descritiva do inicio ao fim até se tornar um tanto enfadonha ou mesmo perdida por tantas mudanças de cenários, internos e externos, a narrativa é, contudo e como um todo, muito bem elaborada ao propósito de criticar a crueldade humana. Charles, com a ajuda de uma tia influente no sul da Inglaterra e norte da França, consegue, após uma fase tediosa de sua vida aventureira, um ingresso para capitanear um barco a vapor que subiria a bacia congolesa atrás de riquezas e contratos com traficantes e alfandegários já prostrados na região.
É precisamente a partir deste ponto que ele, após divagar junto aos companheiros sobre o valor da vida naqueles tempos, começa a relatar sua experiência na África recém-dividida entre as potências imperialistas de então. Durante a viagem, esse nosso repórter involuntário do horror já começa a se deparar com a guerra e a semiescravidão explícitas que cobrem toda a imensa massa de terra ao sul do Saara, com testemunhos de bombardeios de portos resistentes ou revoltosos ao longo de toda a rota até a foz do Congo.
Chegando ao seu posto na costa, se prepara então ele para subir o gigantesco rio no rumo do primeiro posto de comércio, colonização e exploração das riquezas da imensa selva, ela própria uma personagem singular. A partir dali a história começa a ganhar vida não só com o detalhamento das paisagens como também das reações, sentimentos e expressões corporais ou faciais dos vários interlocutores de Marlow até esta vila onde sua designação como barqueiro rumo ao desconhecido ficaria clara e um nome como que legendário começava a ser dito na boca de todos os “peregrinos” (brancos ironicamente assim tratados por Conrad pela patética compostura pomposa com a qual caminhavam a esmo nos ermos): Kurtz.
“Sei que não sou particularmente sensível; já tive de bater e me defender. Tive de resistir e atacar às vezes — é o único jeito de resistir — sem calcular o custo exato, de acordo com as exigências do tipo de vida em que caí. Vi o demônio da violência, o demônio da cobiça, o demônio do desejo ardente; mas, por todas as estrelas!, eram demônios fortes luxuriosos, de olhos vermelhos, que influenciavam e conduziam os homens — homens, digo. Mas parado ali naquela encosta, previ que, sob o sol ofuscante, eu viria a conhecer um demônio mole, dissimulado, com o olho fraco de uma loucura ávida e impiedosa. (chegada ao interior)
Aos poucos, a despeito de isso ser dito pelo autor no desfecho da narrativa, fica claro ao leitor que Coração das Trevas é de fato o nome dado a um país ficcional que está se formando naquela portentosa selva desconhecida, tanto no fato humano como no ecológico.
O impacto deste conhecer desconhecendo é toda a essência do trabalho de Conrad, denunciando a ignorância gananciosa e racista dos homens da Europa.
Marlow vai se apercebendo disso mesmo ao longo de seu relato no rumo do coração deste reino que é governado extraoficialmente por este Kurtz (chefe expedicionário que aos poucos vai se mostrando ousado e cruel, realmente disposto a fundar um Estado próprio que traficaria marfim para brancos da costa e escravizaria tribos). Essa nova escravidão, como o neocolonialismo, estão, assim, presentes durante a subida do Congo. A disposição dos postos avançados de sua companhia atesta o horror da subjugação à força e o ódio velado que os negros nutrem por seus usurpadores, sempre em contraste com as sombras das árvores onde descansam para morrer, fustigados por tanto labor forçado.
“A palavra ‘marfim’ ressoava no ar, era sussurrada, suspirada. Dava para pensar que rezavam para ela. Um tom de imbecil voracidade perspassava tudo, como a emanação de algum cadáver. Por Deus! Nunca vi nada tão irreal em minha vida. E lá fora, a mata silenciosa que cercava aquele grão de terra limpa me pareceu algo grande e invencível, como o mal ou a verdade, pacientemente a espera do fim daquela fantástica invasão. (Início da segunda parte)
Quando nos atemos que o livro fora publicado em 1902, concluímos que Conrad realmente faz de seu maior trabalho um ato político de condenação à tragédia que foi a colonização forçada do Congo, desde o seu princípio, com as empresas de comércio e corso francesas e britânicas, como no culminar de sua possessão via o rei Leopoldo I da Bélgica, que transformou de fato toda aquela imensidão em um coração trevoso. O teutão Kurtz (curto em alemão) é, desta forma, o rei Leopoldo aos olhos de Marlow, pago para subir ainda mais o rio, consertar e pilotar o vapor que irá reforçar o traslado de riquezas assaltadas por ele na floresta cruel.; Sendo precisamente neste ponto de inflexão da narrativa em que ele de fato se apercebe do ódio a toda aquela situação, seu emprego e novo patrão naquelas desolações do mundo.
“Havia um ar de conspiração na estação, mas sem nenhuma consequência, claro. Era tão irreal quanto todo o resto, como a falsa filantropia de todo o empreendimento, como a fala deles como o seu governo, como a sua demonstração de trabalho. (Terceira parte, flagra de Marlow, ao consertar o navio, de gente falando mal de Kurtz à praia fluvial)
Mesmo sendo muitas vezes exageradamente abrupto nas passagens de cenas ou acontecimentos, a simples importância histórica do romance é por si só o convite para sua leitura e final, como não poderia deixar de ser, antropologicamente trágico e eletrizante, onde autor e personagens se fundem para dar a quem o lê um medo e raiva idênticos a nativos e invasores.




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