A volta da supremacia binária?
- Júlio Moredo

- 19 de jul. de 2021
- 3 min de leitura

Maquiavel, célebre pensador renascentista e pai do absolutismo, eternizou-se ao, grosso modo, defender que os fins justificam os meios empregados por um governante a fim de manter seu poder. Em sua obra célebre, O Príncipe, ele disse que um chefe de Estado bem-sucedido teria o dom de saber como ser temido, atacando seus inimigos quando estes menos esperam, mesmo que para isso tenha que fingir fraqueza e conceder a eles certas benesses.

O que está ocorrendo a Palmeiras e Flamengo nas últimas semanas aparenta ser isso mesmo. Os dois colossos atualmente dominam e rivalizam a supremacia do futebol nacional com equipes taticamente distintas mas muito ganhadoras e apoiada numa montanha de dinheiro de sócios e patrocinadores, além de grande poder de bastidores (o Flamengo, inclusive, o tem até por demais, contando muitas vezes com a arbitragem em seus embates e a simpatia do atual desgoverno federal).
Mas isso não vem (tanto) ao caso. Fato é que ambas as equipes, aparentemente adormecidas num maquiavélico berço esplêndido, parecem ter acordado para ombrear ponto a ponto pelo caneco do Brasileirão. O Verdão, após boa vitória sobre um combalido porém sempre tradicional Santos, por 3x2, foi a Goiânia e levou do Serrado o triunfo mais convincente deste ano do pragmático Abel Ferreira, timoneiro lusitano da nau das Perdizes, já nova líder na regata pelo título de campeão do Brasil.

Já o time da Gávea massacrou na Boa Terra um bem armado Bahia por inapeláveis 5x0 e já ocupa o sexto posto de um campeonato ainda em seu início, com o polêmico e eficaz Gabriel Barbosa em destaque ao lado de um igualmente letal Pedro, isso sem falar de Arrascaeta, Everton Ribeiro e William Arão, que parecem ter recuperado poder de guerra com o sangue novo de Renato Gaúcho como o novo Príncipe do Ninho do Urubu. O Mais Querido soma agora 10 pontos na tabela, dois a menos que o rival alviverde.
Como infelizmente quase tudo em Pindorama, também no futebol vemos uma supremacia binária entre estes dois times, mais estruturados e com maior capacidade de injeção financeira para a contratação de jogadores com nível acima do poço técnico que é a nossa liga. A rivalidade já foi construída de uns cinco anos para cá entre esses dois estadistas da bola ,que fingiram dormência e ora põem em alerta o falso-rico Atlético-MG, o copeiro Fortaleza, o corporativo Red Bull-Bragança e o organizado Athletico-PR.
Nenhum desses, a meu ver, especialmente num longo prazo, parece ter capacidade e fôlego para impedir uma renhida peleja a dois pelo troféu deste ano, e isso levando em conta que ambos também seguem firmes na Libertadores, outra prioridade obsessiva para a dupla. Basta agora vermos as cenas dos próximos capítulos deste xadrez esportivo e político. Flamengo e Palmeiras, como bem ensinou o filósofo italiano, deram de comer por alguns meses aos iludidos rivais para, agora, tirarem o pão da boca deles e duelar à parte pelo prato principal.

Para isso, cada um usará suas armas e estilos diferentes. O Palmeiras com sua equipe reativa e pragmática, letal quando ataca com Wesley, Scarpa, William Bigode, Veiga e o repatriado Dudu. Já o Mengão dispensa apresentações quando se olha seu escrete no papel e se sabe que a fase ruim já passou ou está passando, que aqueles atletas de elite como Filipe Luís, Mauricio Isla, Diego Ribas e os demais supracitados estão com fome de bola e de taças e com um comandante que parece se assemelhar mais com essa constelação de estrelas num esporte cada vez mais midiático.
Que rolem os dados e que vença o melhor na batalha verde e rubro-negra que se está novamente desenhada. Está aí um dos poucos jogos imperdíveis do futebol brasileiro de hoje em dia.




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