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A mão e a luva - Quadrado amoroso duro e todo machadiano

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 10 de nov. de 2020
  • 4 min de leitura

Nesta novela a princípio despretensiosa, Machado coloca toda a sua genialidade narrativa e descritiva para retratar, através da disputa de três homens distintos pelo amor de uma donzela, o fim de um estilo e fase da cultura ocidental - O romantismo

Novela escrita em 1874, época em que Machado de Assis publicava seus trabalhos em jornais fluminenses, A Mão e a Luva é um duro retrato do amor universal entre homem e mulher e suas variantes sentimentais.


O fim do romantismo é retratado através das lástimas e dores de Estêvão, um desiludido estudante apaixonado por Guiomar, a personagem principal, e Luís Alves, seu amigo de academia e o oposto do amante, sendo um jovem forjado no amor próprio, na razão filosófica e na crença de que os corações femininos são misteriosos e indomáveis.


“O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler. Tu eu chegaste ao fim, põe a epístola no fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ela tem um post-scriptum” (Metáfora de Luís Alves a Estêvão sobre a delícia e o luto amoroso)


A narrativa se inicia quando Estêvão procura o confidente aos prantos para confessar-lhe o seu desejo de morte pela rejeição seca de Guiomar, professora auxiliar na escola de sua tia. O rapaz cria que ela o amava pelos seus sinais de convívio: sorrisos, apertos de mão e olhares.


Toda esta sonhadora conjectura foi abaixo quando este pediu para que ela o escrevesse em São Paulo, onde cursava direito com Luís. A moça fitou-o friamente e o inquiriu a tirar isto de sua mente, pois ela não enviaria cartas.


Dois anos se passam e a segunda parte da história mostra Estêvão, já bacharel, retornado de São Paulo e transformado num poético frequentador das noites cariocas, figura assídua em óperas e teatros junto ao amigo de sempre, Luís.


Numa madrugada mal dormida na casa do colega, o advogado avista, de manhã cedo, uma bela garota de roupão a passear pelas cercas da chácara vizinha. Era a sua doce Guiomar, apagada de seu coração espinhado.


Ela estava vivendo junto à madrinha, uma abastada baronesa. Suas reações ao interpelá-la são reveladoras: seus gestos não fluem naturalmente, seu corpo e sua voz se desconcertam como alguém arrebatado por uma fagulha reacendida na alma. A menina, por sua vez, permanece tão cortês quanto austera ao dialogar com o admirador.


“Estêvão retirou-se dali cabisbaixo e triste, batido de contrários sentimentos, cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por cima de tudo isso o eco vago e surdo desta interrogação: - Entro num drama ou saio de uma comédia? (Trecho da novela após o reencontro)


Estêvão é, em suma, a própria personificação do romantismo morrendo, perdendo para o amor racional, em alegoria com as correntes literárias da época.


Com o passar dos dias, o mártir da trama não se aguenta de atormentada paixão. Vendo Guiomar todos os dias como advogado da Baronesa, ele planeja dizer todo o seu sofrer a ela. A chance surge em um jantar, no jardim em que se reencontraram.

"A dor era visivelmente sincera, a eloquência vinha do coração" (Trecho da declaração de Estêvão)


Estêvão a ama tanto que se declara com fervor passional de alguém desesperançado de ser correspondido por uma dama senhora de si e amante de seu reflexo, medrosa de devolver tanta devoção a quem lha oferece. Assim, o sonhador rapaz acaba abdicando de seu orgulho, implorando que ao menos despertasse nela comiseração ou remorso.

Guiomar era fria porém não cruel ou vil, então há muitos momentos em que ela lamenta não poder corresponder a tão dedicado amor.


Entretanto, ela havia aprendido com as dores da vida (órfã na pré-adolescência) a se bastar e lutar por sua afirmação social. Desenvolvendo, assim, amor puro tão somente à sua madrinha.


O desejo de sua mãe de baptismo, inclusive, passa por juntá-la a seu sobrinho Jorge, autêntico indolente e bon vivant de avultada herança.


Persuadido por Mrs. Oswald, governanta inglesa da casa, Jorge também se declara à moça por meio de uma carta. Oswald não conhecia o íntimo de Guiomar: ela também não amava o fútil Jorge e o boêmio mais desejava-a como troféu do que para construir uma vida a seu lado. A missiva só instiga mais indiferença na bela.


Uma viagem de quatro meses ao interior surge à vista. Ela foi tramada pela própria Guiomar para se livrar dos pretendentes inconvenientes. Neste momento Luís Alves, agora um ambicioso deputado, reaparece no drama, complementado o quadrado amoroso.

Frio e altivo, ele manipula Estêvão a deixar que ele testasse se Guiomar ainda o tinha em conta, servindo ele próprio de isca, igualmente fingindo aliar-se a Jorge para barrar a viagem ao campo.


Com atuação firme e sóbria, sem exageros poéticos, perigosa armadilha no cortejo, Luís acaba, com sutileza e em momentos oportunos com as vizinhas, finalmente desperta em Guiomar a curiosidade ambiciosa de imaginar um futuro unido a ele. Essa curiosidade logo se converte em amor no peito da jovem. Luís demonstra a habilidade em admirá-la antes de idolatrá-la.


"Jorge causava-lhe tédio, era um Diógenes de espécie nova; através da capa rota da sua importância, via-se-lhe palpitar a triste vulgaridade. Estêvão inspirava-lhe mais algum respeito; era uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, não para vencer... nunca podia chegar a amor; tinha muito de superioridade e perdão" (Trecho da novela)


Ao final, a força feminina da protagonista prevalece, havendo de ser ela a escolher qual dos três seria a "luva de sua mão", aquele que vestirá (ou se encaixará) nos seus sonhos e projetos. Seria benevolente à madrinha, se casando com Jorge, compreensiva ao se unir a Estêvão ou seguiria seu coração e terminaria com o poderoso Luís Alves?


A obra é um drama humano incontornável e forte, mexendo com quem a lê e já amou ou foi amado. Certo é que Machado, em seus brilhantes diálogos como narrador, nos deixa claro uma coisa: ninguém pode exigir o amor a outrem. O egoísmo de dar e demandar receber é o prelúdio para viver sem ser estimado e, pior, respeitado pelo sexo oposto.

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