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A Confissão da leoa - As vozes feministas da África

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 10 de nov. de 2020
  • 5 min de leitura

Neste livro Mia Couto dialóga com o leitor acerca da submissão e infelicidade inata de todas as mulheres de um Moçambique tradicional, ocultista e dogmático pelo advento do catolicismo pelos portugueses



Possuindo todas as características ensaísticas e poéticas que consagraram Mia Couto dentre os melhores romancistas contemporâneos, A Confissão da Leoa se rege pela abrangência de sentires, pensares e viveres das gentes africanas em seus constantes confrontos entre o arcaico e novo, estrangeiro e nativo, animismo tribal e moral cristã.


A história se inicia após o funeral de Silência, terceira filha da resiliste Hanifa Assulua e do autoritário Genito Mpepe a morrer de ataques de leões nas imediações da aldeia de Kulumani, norte de Moçambique e lar da família. O episódio traumático do enterro e as reações quase instintivas de sua depressiva mãe são narrados por Mariamar Assulua. Sofrida, traumatizada e presa, a jovem clama por fugir da indolente vila em busca de alegria, pelo rio Lideia que, segundo seu tio e “avô” Adjuru, figura paterna e mágica em sua vida, seria o dono de sua sina.


Durante a noite de luto pelo ente finado, diversos cultos tradicionais são perspectivadas nas descrições detalhistas e sensuais da menina, que testemunha o sofrer de sua mãe, tresloucada pelo desejo de se deitar em amor com seu pai para conspurcar a terra da aldeia e, enfim, ser ardentemente amada por ele, vingando-se dos infortúnios trazidos pelos felinos assassinos. O probatório episódio se encerra com o anúncio de seu pai de que um grupo de caçadores foi solicitado para dar cabo da ameaça das feras.


O realismo fantástico ocorre numa constante neste início. Rejeitada na fatídica noite, a própria Hanifa se toca, masturbando-se ao chão da casa, perto dos mortos, e sente uma garra de leão a trespassá-la, em prazer e dor, sua carne. Uma “Vingança contra os homens” era fazer amor consigo própria a pensar nos mortos, com a ajuda dos instintos daquelas bestas ancestrais:


“...De todos esses amores, cada um por si escolhido, aquela mulher só colhia vantagens: não havia doença, não havia traição, não havia risco de engravidar. Restavam simples lembranças, sem cinza nem semente. Apenas longe dos vivos, as mulheres de Kulumani encontram correspondidos amores: era isso que minha mãe ensinava.” (o segredo da vizinha, capítulo 3)


Intercalado em capítulos, o protagonismo da obra é passado, então, para as impressões do líder dos caçadores, um misterioso “Mulato”, odiado pelos pais de Mariamar por um dia a ter desejado de modo platônico. Ele já havia passado por Kulumani como caçador de crocodilos dezesseis anos antes, recém-acabada a guerra civil do país. Após libertá-la de um abusivo policial local, ele cobiça as curvas e belezas da donzela. De nome Arcanjo Baleiro, o rapaz vê Mariamar dançar e balançar irresistivelmente às suas vistas na festa que se segue. Promete-a fuga, amor e alegria. Promete e não cumpre o sonhado escapar no rumo do mar. A menina se queda esperando desde então. Ele é igualmente atormentado por uma tragédia familiar que levou sua sensível mãe e seu forte pai, vítima acidental de um tiro de seu próprio irmão, Rolando, que jamais se recuperou do choque e vive como cliente de um sanatório de Maputo.


A dor e a solidão o assolam desde então. O primeiro torna-se caçador como consolo e fuga da tragédia desafortunada que vivenciou, mal visitando o irmão no hospital psiquiátrico. Rolando, por sua vez, fala por base de sinais e movimentos labiais. A enfermeira de seu caso, Luzilia, acaba se relacionando com o rapaz. O casal fica noivo na mesma época em que Arcanjo é selecionado por concurso para combater os felinos em Kulumani, regressado ao lugarejo.


Como de praxe nas prosas de Couto, a opressão das mulheres e as agonias viris dos homens são colocadas a olhos desnudos pela sensualidade de cada cena, alegoria e diálogo que a cadencia de seu texto encerra. Essa qualidade valiosa do autor é mantida e reforçada neste romance. O tristonho Arcanjo, “Caçador a sério”, é perdidamente apaixonado pela cunhada e, um ano após se declarar por carta, toma coragem de visitá-la para reportar sua ida no rumo de sua última tarefa:


“Escondi a mágoa da rejeição. Como há espaço, dentro de nós, para enterrarmos as nossas pequenas mortes! Percorremos os corredores, lado a lado, num silêncio tão frio como o próprio asilo (...) Um ano depois, Luzilia caminha à minha frente, confirmando seu estatuto de dona da minha alma, proprietária do mundo.” (diálogo ente Luzilia e Arcanjo, capítulo dois)


Com o iminente retorno de Baleiro, Mariamar prevê um embuste para, liderados por seu pai, matarem-no. Num dilema quase shakespeariano, foge da prisão domiciliar imposta pelo pai e, descendo o Lideia, tenta avisar o rapaz. Ao mesmo tempo, porém, a gana de escapar de vez daquela paisagem, daquele seu fado, impele-a de largar seu antigo salvador à própria sorte. Este ímpeto é reforçado pelo próprio medo de amar que moldou as mulheres que ela conheceu. O amor conjugal nunca de fato se lhe apresentou.

“É por isso que fujo: tenho medo de ser devorada. Não pela ansiedade dentro de mim. Devorada pelo vazio de não amar. Devorada pelo desejo de ser amada.” (Testemunho dialógico de Mariamar a descer o rio)


Ao chegar à encosta sagrada do curso d’água, onde jazem espíritos criadores, Mariamar interage por olhares com a leoa, autora dos ataques, e vê nela a própria face de suas falecidas manas. O eu lírico do escritor, biólogo de formação, interage e se mescla como café ao leite com o ego de seus próprios personagens, especialmente os femininos, da felina à menina. A partir daquele instante há um renascer dela para o mundo chorando, vendo no sangue que saiu da boca do animal o tingir da própria presença espiritual de suas irmãs nas águas.


Depois desta sublimação do sofrer, do realizar definitivo do seu vazio involuntário, Mariamar acaba descoberta em sua fuga pelo mesmo Próprio, que a traz de volta à vila e a entrega a seu pai. Novamente rejeitado pela mulher cobiçada, Maliqueto sentiu os requintes leoninos a transbordar no instintivo avanço de Assulua, arranhando-o durante sua tentativa de estupro em pleno rio. Presa enquanto vêm os caçadores, ela agora vive para reencontrar Arcanjo Baleiro, sua derradeira e inconsciente esperança de felicidade.


Para o valente Baleiro, o orgulho próprio venceu, fazendo-o partir para a missão sem a companhia de sua musa inspiradora, sugerida pelo próprio Rolando. Não quer ele mais rastejar afeto, suplicando ternura vital (por isso também detesta Gustavo Regalo, repórter da caçada e explorador de mortes e traumas). Desta feita, apesar do enfoque feminista, este universal livro é um encontro, desencontro e reencontro entre duas almas separadas por tantas lágrimas de não ser amado, imersos na ignorância bruta do desamor, caçando o que não há de vir com palavras e espingardas. Toda essa carência reprimida será mediada por leões, espíritos e um abandonado e corroído povoado. Todos eles símbolos de uma África tão tangível se traduzida por mãos habilidosas como as do mago da Beira moçambicana, que escala um desfecho devastador no clímax da narrativa.

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