À conquista da Orelhuda
- Júlio Moredo

- 14 de set. de 2021
- 5 min de leitura

Ela termina e deixa saudades tão fortes quanto fugazes pela sua volta, hiato este que ficou ainda menor de 2020 para cá pela paralisação abrupta pela pandemia da COVID-19. Refiro-me à UEFA Champions League, maior competição de clubes do planeta e terceiro evento esportivo em audiência (perde para o Super Bowl norte-americano, em razão de toda a população ianque o contemplar e para a Copa do Mundo de seleções). A final está marcada para o dia 28 de maio do ano que vem na bela praça czarina de São Petersburgo, Rússia.
O torneio irá se iniciar nesta terça-feira, 14, e promete ser um dos mais acirrados e voluptuosos em verbas, estrelas e publicidades desde a sua criação, em 1955, e remodelação para os padrões atuais de disputa, em 1992, ano em que não só os campeões de cada país, mas também os melhores colocados das ligas mais fortes poderiam disputá-la.
Estes moldes foram reforçados e ampliados a partir da temporada 2004, quando foi chancelada a fase de oitavas-de-final e, um ano antes, a inclusão de quatro novos participantes, elevando o número de classificados de 28 para os atuais 32 de um total de 79 clubes que jogam suas preliminares e sonham chegar aos milhões da fase final. Todos os 55 federados da Associação Europeia têm vaga garantida ao menos nos estágios secundários da Copa.

Sucesso de popularidade, espetáculo e desportivismo, a Orelhuda, apelido carinhosamente dado ao campeonato pelo formato de seu corrente troféu, criado em 1967 é como a sua própria joia, já que remodelou os rumos das escolas futebolísticas do planeta, dando ao esporte novas perspectivas de jogo, mercado e, claro, paixão.
Desde as máquinas latinas dos anos 60, como Real Madrid de Di Stefano e Puskas, o Benfica de Eusébio e Coluna e Milan e Inter de Maldini e Mazzola, passando pelo Carrossel Holandês do Ajax de Cruyff ou à potência alemã do Bayern de Beckenbauer nos anos 70, chegando ao Liverpool de Dalglish e ao miraculoso Nottingham Forest de Bryan Clough dos anos 80, a Champions sempre foi o palco onde as inovações eram vistas, um “museu de grandes novidades” gramado, vibrante e cheio de craques.
A partir dos anos 90, com a modernização e globalização do Desporto-Rei, vários jogadores de escolas não europeias vieram abrilhantar ainda mais a competição, com destaque para os inúmeros brazucas e hermanos platinos que não só conquistaram-na como foram melhores jogadores ou artilheiros da peleja, além de africanos e asiáticos que também deixaram suas marcas douradas em suas equipes, contribuindo para uma melhora competitiva em toda a Terra que joga futebol.
No total, 22 clubes tiveram a honra máxima de erguer a cobiçada taça, sendo que destes apenas doze seletos times lograram conquistá-la mais do que uma vez. O Chelsea, atual campeão, foi o último a atingir tal feito.
A Champions me cativa desde criança pelo seu charme e exemplo de organização. Remete à época feliz em que via, após o colégio, meus ídolos brasileiros e estrangeiros darem show na cancha. Vencida a ameaça de uma infame e torpe Superliga Europeia (que Deus a tenha em mau lugar!), esta edição parece que relançará seus amantes aos tempos idos dos anos 2000, quando sua competitividade era acirrada entre forças de diversas partes do Velho Mundo

Uma volta mais do que essencial será a do público, já que o vírus em quase toda a União Europeia parece estar controlado. E uma mudança significativa será a extinção da “regra do gol fora” pela primeira vez na história do certame, fazendo com que os jogos tenham mais intensidade e dinamismo do início ao fim dos mata-matas, já que um placar favorável por empate com gols na casa inimiga não mais dará garantia de classificação.
Do ponto de vista monetário, porém, assistiremos a um espetáculo repetido há pelo menos dez ou onze anos: o embate entre novos-ricos como Manchester City e PSG com velhas forças e eternas potências como Real Madrid, Bayern Munique e Manchester United. Este ano, todavia, teremos tudo para assistir a duelos titânicos entre antigas glórias continentais na luta para sobreviver neste intricado mundo mercadológico da bola. Será a guerra dos milhões contra os tostões, da tradição contra a inovação.
Falando em agrupamentos e confrontos, vamos a eles: o grupo A reuniu, num tresloucado sorteio, os dois “árabes” e “petrolíferos” do pedaço, isto é, o galáctico PSG de Mesis, Neymar e Mbapé e o professoral Manchester City de Guardiola, vice-campeão passado. Ambos são geridos pelos fundos infinitos de seus xeques, frutos do neoliberalismo noventista. Os belgas do Brugge e especialmente o alemão Leipzig, outro clube-empresa bem trabalhado, tentarão fazer frente à dupla da grana.
Na série B teremos o que chamamos de “grupo da morte”, num claro “erro” de sistema que desequilibrou os demais chaveamentos. Nada menos do que três ex-campeões (Milan, Liverpool e Porto) farão companhia a um tri-vice (Atlético de Madrid). Por aqui a promessa será de jogos de tirar o fôlego pelo peso das camisas, parecendo-me certo que os colchoneros brigarão com os reds ingleses pelos lugares cimeiros, restando a Milan e Porto uma briga pela vaga na Liga Europa (3º lugar).

O terceiro grupo tem igualmente bom nível técnico, reunindo o atual campeão holandês e histórico Ajax junto a Besiktas, eterno rico turco, bem como do antigo campeão Borussia Dortmund e de um esperançoso Sporting, que não disputava a Champions há boas quatro temporadas. Todos os quatro têm chances de apuramento.
Já na quarta chave veremos um reencontro de antigos rivais do continente e finalistas conjuntos: Real Madrid e Internazionale, que se digladiarão pela vaga principal às oitavas junto ao sempre perigoso Shakhtar e a um debutante da pobre Moldávia, o Shefiff, respiro de resistência do lado C europeu nesta milionária prova de fogo.
Talvez o segundo grupo mais interessante, o E colocará frente a frente ex-campeões como Bayern Munique, Barcelona e Benfica. O Dynamo de Kiev, tradicionalíssimo em provas europeias e antiga academia de talentos do leste europeu, complementa o quarteto. Nele, creio que veremos um sempre colossal Bayern ter a primazia até mesmo contra um combalido e órfão clube blaugrana, que nem de longe lembra seus potentes anos de Messi, Xavi, Iniesta, Neymar, Suárez ou Girezman, todos eles ou aposentados ou longe da Cidade Condal. Isso pode dar alento de classificação ao Benfica de Jorge Jesus (que não me ouçam flamenguistas!).
Young Boys, Atalanta, Manchester United e Villareal jogarão entre si no pote F. Os Diabos Vermelhos, turbinados com volta de Cristiano e a contratação de Varane para a zaga, poderão ter a desforra da final de Liga Europa perdida justamente pelo Submarino Amarelo espanhol. Os dois e a ótima Atalanta correm pelas duas vagas às oitavas. Os suíços, contudo, correm por fora e têm qualidade e gestão para aprontar!
Para o penúltimo grupo ficou reservado um conjunto que mais parece advir da Liga Europa, já que conta com Sevilla (maior papa-taças dela), o bom time do Lille, surpreendente campeão francês, um regenerado Wolfsburg e a filial austríaca da Red Bull, baseada em Salzburg. Por aqui todos se equivalem, com leve vantagem ao conjunto da Andaluzia e aos lobos normandos na briga pela bolada da fase final.
Por fim, no último agrupamento (desculpem-me o alongar, a tarefa de informar com cultura é árdua) reunirá a tradicionalíssima e rica Juventus, um pouco enfraquecida mas com a retaguarda italiana campeã da Euro. O Chelsea, atual campeão, chega reforçado, tarimbado e já grande na Champions, querendo mostrar mais serviço. Os russos do Zenit e o Malmo, representante sueco depois de muito tempo, completam o pote. Meu palpite fica com um Chelsea campeão do grupo seguido por uma Juve atenta ao Zenit.
A certeza será de muitos golaços e duelos épicos nas fases agudas. Essa copa remonta aos tempos áureos do futebol romântico e acompanha um pouco a história da Europa na forma de uma bola de futebol tanto antes como depois de sua criação, tão lúdica como casual por editores da France Football e entusiastas britânicos que queriam ver, num ainda traumático ano de pós-Segunda Guerra, quem era o rei do continente berço de nossa civilização. Graças a eles vemos até hoje este saudável embate a cada ano. Um viva ao esporte e aos seus promotores por isso!




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