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Sobre Jasões e Íris

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 2 de ago. de 2021
  • 4 min de leitura

Na última semana, novamente esforçando-me a ficar acordado a ver as Olimpíadas do outro lado do Mundo, fiquei mal acostumado com tamanho orgulho, reflexo direto da carência, por certo, que vivemos atualmente no Brasil. Desta feita o sentimento veio das águas, com Ítalo Ferreira, o Jasão das pranchas, timoneiro e nauta com seus pés no barco de palafita, diretamente de Baía Formosa-RN para a eternidade esportiva.

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A outra parte do júbilo veio dos ares, com uma Íris dourada e prateada da ginástica, Rebeca Andrade. Negra e filha de mãe solo que preencheu toda Tóquio com aquele sorriso sincero de quem, tal e qual Ítalo, não só adentrou ao Olimpo do esporte como também singrou chegar à prateleira das figuras mais ilustres de patrimônios nacionais vivos, como Pelé, Oscar Schimidt, Gustavo Kuerten, Maurren Maggi, Marta, Robert Scheidt, Bernardinho, Giba, Cesar Cielo, Arthur Zanetti, Daiane dos Santos, dentre tantos outros das artes cênicas, plásticas, das ciências e das letras que honram a nação pelo simples fato de serem e estarem vivientes.

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É comum, ainda mais numa competição forjada no auge da Grécia Clássica, que o helenismo, pilar da nossa Civilização, venha à tona quando vemos prodígios como os desta dupla, cada um à sua maneira fazendo-nos mais inspirados a tocar o dia a dia com a resignação dos fortes, encarando nossas ondas e cavalos diuturnos com esperança, foco e fé renovados num futuro digno e risonho, para nós e para o país.


No caso de nosso Jasão, que fez da prancha reserva seu Argos improvisado, rasgando a orla japonesa com a frieza de quem sabia da sua superioridade, Ítalo Ferreira despachou um quase arrogante japonês numa bateria impecável. Parecia que o próprio Poseidon o estava coroando a cada manobra da sua embarcação negra, e negando, ao mesmo tempo, passagem para as mais triviais tentativas de respostas de Kanoa Igarashi, aquele que de modo polêmico tirou Gabriel Medina, outro favorito ao ouro, da disputa final.

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No fim, pouco importou a nota talvez exagerada frente a Medina. A festa foi digna do concretizar de uma das doze tarefas hercúleas desse grande campeão, fruto de um trabalho sério de um esporte que o Brasil conquistou glórias e respeito através do fenomenal movimento conhecido como Brazilian Storm (a Tormenta Brasileira). Foi coisa rara e linda de se ver nosso bravo pioneiro do ouro no surfe chorar à memória da avó, já falecida e sua maior incentivadora. Quanto de poesia há em cada lágrima, ainda mais sendo estas de alegria bruta?


Já nossa Íris, deusa dos ventos e da velocidade na mesma Grécia, descendente de titãs oceânides, voou para um ouro inédito para o nosso país em um salto que espantou os jurados pela altura, dificuldade e plástica de três piruetas e meia, com chegada cravada ao solo, sem titubear. Para trás ficaram novamente concorrentes com mais estrutura e tradição: uma norte-americana, companheira da desistente Simone Biles, e uma sul-coreana, respectivamente prata e bronze. Rebeca já havia ganhado a prata no individual geral, logrando, assim, obter outro recorde para a sua já mitológica carreira, no auge dos jovens 22 anos: é agora a primeira atleta feminina brasileira a trazer, numa única edição olímpica, duas medalhas para casa.

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Após essa última semana e meia de Jogos, vejo com alegria que nossa galeria de imortais segue firme a ser incrementada com mais e mais exemplos de superação e glória, não só destes que galgam o pódio olímpico, mas também de todos os demais briosos atletas que, a despeito da invisibilidade crônica (só ficam em evidência a cada quatro anos, justamente nas Olimpíadas), seguem firmes e fortes a tentar dar o seu melhor contributo ao desporte tupiniquim, tão ignorado e como nunca antes jogado às traças de uma secretaria especial sem verbas, projetos ou grandes aportes de empresas privadas.


São eles que nos fazem lembrar, ainda que de modo efêmero, que não existe somente o futebol masculino, o time do coração ou a descreditada Canarinha para se torcer e orgulhar. O que dizer de Bruno Fratus, por exemplo? Dando aula de força, personalidade e amor à esposa-treinadora. Missão cumprida, Bruno, medalha que não veio em dois Jogos passado não fugiu ao terceiro!


Histórias dramáticas de tantos heróis quase anônimos são contadas todos os dias em cada tablado, quadra, tatame, raia ou estádio em que a bandeira nacional é levada ao peito. Foi assim com as meninas do futebol, tão galhardas a lutar por mais uma medalha. Não deu, mas o recado está mais do que, felizmente, dado, e o futebol feminino segue com muito sacrifício conquistando seu espaço e respeito. Que sejam cada um deles, de nosso mais novo Jasão das ondas, mago intrépido das espumas, à nossa Íris dos ginásios, provando que voar é possível, na vida e no esporte, a ao menos falar por cada um de nossos guerreiros que não conseguem obter tais êxitos, em desvantagem à partida por tudo o que já conhecemos.


Ainda temos chances reais de medalhas nos quatro vôleis (os dois de quadra e os dois de praia), onde o Brasil prova ano após ano que pode e dá certo quando o trabalho é sério. Também podemos medalhar dourado no sempre cotado futebol masculino (a seleção olímpica vem jogando muito bem), além de modalidades individuais ou em duplas como boxe, vela, canoagem e atletismo. Oxalá venham mais pódios, para que cada um de nossos atletas tenha um pequeno espaço naquele curto tablado, pela voz de mais um novo herói helênico das terras de Tupã.

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