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Rocambole Do Quixotesco Tricolor

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 8 de jul. de 2021
  • 4 min de leitura

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Dom Quixote de La Mancha, personagem icônico do espanhol Miguel de Cervantes e da literatura humanista do século XVII, era um andarilho tresloucado e angustiado que, por sonhos inconclusos e inconclusivos de sua mente, adorava guerrear contra moinhos de vento, inventando monstros e inimigos ao longo de sua jornada pelo agreste interior castelhano.


Como toda obra fundamental e atemporal da humanidade, Quixote virou parâmetro para muitas metáforas, alusões e paralelos com situações cotidianas que vivemos, bem como de alegorias em pessoas ou instituições que conhecemos. E é exatamente este o caso do São Paulo Futebol clube, considerado por muitos (e por mim) como o maior time do Brasil pela sua invejável e suntuosa galeria de títulos nacionais e internacionais.

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Acumulando nesta sala troféus como um hexacampeonato brasileiro (com um inigualável tri entre 2006 e 2008), além de nada menos do que doze conquistas além-fronteiras (incluindo três Mundiais e igual número de Libertadores), o Tricolor do Morumbi parece que se habituou, ao menos desde 2012, a viver de brilharecos e lampejos terminais daquelecolosso que outrora fora apodado como “O Soberano” por Juvenal Juvêncio, o Sancho Pança-mor da ascensão e ocaso são-paulinos.


Foi este bem-sucedido dirigente de futebol quem, com soberba e supremacia em alta, chamou seu clube de coração pelo termo mais arrogante possível. A gestão de Juvêncio como presidente foi o oposto de sua administração como cartola de vestiário: balbúrdias políticas, divisões internas, ingerência no elenco profissional e bravatas na imprensa. Em menos de cinco anos desde o tricampeonato de 2008, estava o Tricolor às favas em qualquer disputa séria de títulos, sendo um mero figurante em qualquer disputa que entrasse.

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Neste meio-tempo, até chegarmos aos dias de hoje, o São Paulo já teve três mandatários máximos (o obscuro Carlos Miguel Aidar, o inexpressivo e incompetente Leco e, agora, o marqueteiro Júlio Casares). Excluindo-se a atual gestão de Casares, ainda prematura de se avaliar, as duas últimas conseguiram ser piores do que a do folclórico Juvenal.


Assim, o Clube da Fé colecionou freguesias aos principais rivais paulistas (em especial ao Corinthians, jamais batido pelo Tricolor em Itaquera), e diversos falhanços em disputas como Paulista, Brasileiro, Libertadores e Sul-americana, com eliminações vexatórias com Mirassol, Talleres e Defensa y Justicia em cada uma delas, só para ficar nos escândalos mais dolorosamente crus na memória são-paulina. Prestações deste nível transformaram o outrora titã da bola, clube mais moderno e profissional do Brasil nos tempos de Marcelo Portugal Gouvêa, num autêntico Dom Quixote tupiniquim, atontado por suas próprias deficiências gerenciais e com alguns flashes de honra no gramado, batendo em moinhos e deixando as feras reais intactas.

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Chegou 2021, ano ainda atípico por causa da pandemia, e uma nova direção poderia ter a chance de se provar dentro das quatro linhas. Casares ousou e trouxe Hernán Crespo, histórico goleador argentino e promissor treinador, para comandar uma nova fase no Morumbi. Não demorou para que a sempre desconfiada (e não muito fiel) torcida ficasse esperançosa com o futebol moderno, vistoso e goleador que o portenho trazia para o jogo do São Paulo. Figuras como Daniel Alves voltaram a render o esperado no Campeonato Paulista em posição mais recuada na cancha, dando espaço para jogadores ainda apagados, como Pablo, Liziero e Igor Gomes, aparecerem muito bem na bonita conquista do Paulistão após dezesseis anos de jejum.


Veio o início de Brasileirão e a fasquia claque tricolor estava altíssima para acompanhar o time naquele início de caminhada no rumo do que poderia ser uma dobradinha com o título estadual, coroando também o fim da seca de títulos nacionais. As primeiras nove rodadas, no entanto, foram desastrosas para o time de Crespo: cinco empates, quatro derrotas (a última no passado domingo, por 2x1, para o ambicioso Red Bull Bragança) e nenhuma (!) vitória.


A equipe amarga uma incômoda mas reversível 17ª colocação e aquele pícaro Quixote tricolor parece que resolveu reaparecer para preencher de desilusão quem pensava que o São Paulo se bateria de frente com os grandes e brigaria pelo caneco do maior torneio do País. Vendo alguns jogos, a impressão que dá é essa mesma: não há liga na equipe, o meio-campo não tem qualquer compactação e a concentração parece faltar em quase todo o tempo regulamentar.


De repente, num surto de brios, o homem de La Mancha são-paulino reaparece para derrubar um ocasional moinho verdadeiro, um esquadrão poderoso como o do Flamengo, um dos poucos adversários robustos em que o São Paulo costuma triunfar. Mas a desilusão e vergonha parecem voltar para ficar ainda este ano junto dos fãs do Morumbi, especialmente ao vermos o semblante perdido até mesmo do antes empolgado Crespo em suas entrevistas coletivas.


A única coisa que ainda aparenta ser inimaginável é especular que o gigantesco Tricolor sucumbirá pela primeira vez a uma segunda divisão (o outro Tricolor, o dos Pampas, igualmente gigante, também parece querer de novo esta vaga). Seria algo até positivo pelo choque de realidade e profissionalização a uma agremiação que se apequenou com erros outrora inexistentes, porém ainda assim aposto numa melhora ao menos para figurar no meio da tabela, como um bom e esquizoide Quixote no qual o São Paulo Futebol Clube infelizmente se tornou.

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