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Mil anos de queijo X Quinhentos anos de farinha

  • Foto do escritor: Júlio Moredo
    Júlio Moredo
  • 26 de jul. de 2021
  • 3 min de leitura

Uma das lembranças mais ternas que tenho de minha infância é a daquela manhã pura e alegre em que o Brasil sagrou-se pentacampeão mundial, neste mesmo Japão de agora, em 2002.


Entrava eu na casa dos meus onze anos e começava a enxergar com a perspicácia de um pré-adolescente o quanto nosso país era carente de todas as maneiras imagináveis. Porém percebi também, logo após Cafu erguer a taça, subindo em seu pedestal a declamar amores à sua musa, o quanto éramos especiais, carismáticos e lúdicos de uma maneira inigualável. Até hoje, se revejo esta imagem do nosso capitão de Yokohama, lágrimas me vêm à face.

Naquele domingo de quase duas décadas atrás, lembro-me perfeitamente de minha mãe cravando o mote para a peleja que vencemos ante um musculoso conjunto alemão: “São mil anos de queijo contra quinhentos anos de farinha, meu filho”.


Aquela frase, na metade do primeiro tempo da partida, logo coroada com a consagração dos 2x0 finais, marcou-me para o resto de minha vida. Era a superação de todas as dificuldades prévias de uma nação desigual e de capitalismo tardio contra um poderio estrutural, econômico e social muito mais sólido, com raízes formadoras com o dobro da nossa curta existência colonial e, infelizmente, escravagista.


Eis que ontem de madrugada, ao assistir às finais do skate feminino, senti algo parecido, uma coisinha à toa que cutucou meu coração com a mesma intensidade: a vitória de Rayssa Leal fez-me lembrar daquela aurora magnífica em que o esplendor do melhor que o Brasil tem a oferecer transbordou pelos quatro cantos do planeta. O triunfo de prata da adolescente de 13 anos (quase a mesma idade que eu tinha no Penta) nos conclama a relembrar o quão especiais somos por, a despeito de nosso Estado e sociedade, sermos capazes de mensagens tão singelas, de sorrisos tão profundos e de choros tão libertadores.


A menininha de Imperatriz, zona do Cerrado maranhense, ganhou o carinho de uma Olimpíada já marcada pela novidade de ver esportes como surfe e skate em sua grade, o que deu um grande impacto no público jovem (a média de idade das competidoras na final não ultrapassava os 20 anos). E Rayssa, com suas tenras 13 primaveras e a magreza de ainda pouco queijo e muita farinha e feijão, mostrou a adversárias mais altas e fortes o que uma brasileira de fibra, força e fé pode fazer e mostrar ao esporte.


Ficaram para trás uma norte-americana, uma holandesa, uma chinesa e uma japonesa. Todas deram ainda mais valor à ousadia, à ginga e ao talento bruto de nossa garota. Poucas vezes desde aquela partida em 2002 me emocionei tanto como nesta frenética competição ocorrida em Tóquio, do outro lado da baía que viu a nossa quinta estrela no futebol.


Tive o privilégio de ver ao vivo, via televisor, uma valente garota conquistar o condão de comover 215 milhões de almas atormentadas, maculadas e destroçadas por uma praga sanitária, política, econômica e social com um giro numa prancha de madeira e lindas escorregadelas pelos corrimões nipônicos, tudo coroado com o pranto de quem aprendeu a ser gigante na marra, sem perder a candura de um doce sorrir.

Que Rayssa, Kevin Hoefler e Daniel Cargnin, um igualmente do skate, outro do judô, medalhistas contra tudo e contra todos, nos lembrem de nosso lado luz, aquele que nossos governantes nos fazem esquecer diuturnamente. Que sejam eles os arautos do nosso jeito único de estar no planeta, quase um estado de espírito. Que esbanjem nossa maneira inconfundível de encarar com alegria qualquer desgosto, sem medo de adversidades. Deixem-nos levantar alto o estandarte da reinvenção que fazemos a cada desafio posto por alguém poderoso. Que sejam eles os profetas às avessas do “complexo de vira-lata”, tão genialmente exposto por Nelson Rodrigues. Que ele seja transformado em aliado e motivação para galgarmos triunfos como os da fadinha das rodas.


Que a resiliência do vira-lata-caramelo nunca deixe de potenciar e inspirar um povo que, apesar de tudo, abunda em potencial para ser a nação que merece! Que venham mais medalhas regadas a muita farinha de mandioca, leite Ninho e, claro, suor desta “brava gente brasileira”.

Atletas tupiniquins, nós os saudamos. Muito obrigado por tanto!

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