Florão da América
- Júlio Moredo

- 23 de ago. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 24 de ago. de 2021

Aquando da fuga, em 1808, de D. João VI de Portugal, com toda a sua corte e tesouros para o Rio de Janeiro, correndo das garras do Exército Revolucionário Napoleônico, o mais poderoso da Terra em vários séculos, o Príncipe-Regente do pequeno e outrora forte reino europeu tinha em suas mangas alguns projetos para a nova capital de seu Império Colonial.
Para além de abrir os “portos às nações amigas” (eufemismo para Inglaterra como a tal amiga, já que foi a sua Real Marinha quem escoltou os lusitanos no Atlântico) e fundar a primeira Universidade e Banco do Brasil (o mesmo estatal de agora), João VI tinha também um projeto que levou a cabo e tinha um nome muito audacioso, audacioso demais inclusive para o seu perfil bonachão, sossegado e inseguro: o Magnus Brasil.
A ideia nada mais era a de dar o troco nestas bandas de cá do Oceano no que Portugal havia sofrido na Europa, isto é, perdido em seu território continental para a ocupação francesa e consequente guerrilha anglo-portuguesa. Naquela altura, o futuro rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves só tinha uma coisa em mente: alargar as fronteiras de sua colônia americana para norte, no rumo da possessão francesa da Guiana, além do Amapá, e para o sul, na direção do Rio da Prata, outrora já colonizado pelos lusos com a fundação da Colônia do Sacramento, em 1680, e posteriormente devolvido à Espanha após a triste Guerra Guaranítica e o Tratado de Santo Idelfonso, que cimentou as atuais fronteiras do sul do Brasil.

Se aquele triste acidente de percurso do último mês, no Maracanã, com a perda do caneco da Copa América para os argentinos, cravou fundo n’alma de um país sujo de morticínio, bancarrota, golpismo e podridão, ainda temos de nos orgulhar de todo este contexto altamente favorável que nos distanciou dos principais concorrentes pela hegemonia continental. Estamos nos calcanhares portenhos em tudo o que eles eram mais eficazes e nos distanciamos cada vez mais no que já éramos melhores.
Em suma, teremos uma inédita semifinal com três brasileiros e apenas um estrangeiro, o Barcelona de Guayaquil, algoz do Fluminense, outro nacional que quase produziu um espantoso pleno de semifinalistas de um só país. Ele iria juntar-se a Flamengo e Palmeiras, atuais contentores regulares por cada taça em Pindorama, e ao turbinado Atlético Mineiro, desfilando bom futebol nas últimas semanas com a potência de um rejuvenescido Hulk, da categoria do endiabrado platino Zaracho e de um recuperado Vargas, todos comandados sob a patente tarimbada de Cuca.
Estes três poderosos candidatos ao título irão se digladiar entre si para manter o Florão da América no topo americano por mais um ano. Topo este que de 2010 para cá foi ocupado nada menos do que sete vezes por equipes paisanas em onze finais possíveis (triunfos de Internacional em 2010, Santos em 2011, Corinthians em 2012, Atlético Mineiro em 2013, Grêmio em 2017, Flamengo em 2019 e o Palmeiras no ano passado). Numa conta básica de padaria, as chances de o Brasil atingir o 21º título da obsessiva Libertadores é de 75% neste 2021, algo que nos poria ainda mais perto da supremacia no torneio.

Ao que parece, o sonho de um Magnus Brasil arquitetado por D. João VI e seus assessores está cada vez mais próximo de se confirmar a nível desportivo (as Olimpíadas assim o demonstram) e, principalmente, futebolístico, com nossos maiores colossos a darem as cartas e passearem até em terrenos outrora pantanosos como eram Assunção, Buenos Aires e Montevideo. Um alento a uma nação alquebrada e às vésperas da maior crise econômica e política de sua trajetória republicana.
Esperamos mais uma final brazuca. Ela se disputará em Montevideo, no dia 27 de novembro. Foi lá que, às margens do Prata, formamos a então província da Cisplatina. Tomara que ela seja entre o Flamengo (adversário dos equatorianos) e Palmeiras ou Galo, no duelo mais interessante deste ano. Que vença o melhor!




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