Ao jogador das minhas décadas
- Júlio Moredo

- 8 de set. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 8 de set. de 2021

Hoje vou me permitir ser um pouco saudosista, tudo em nome de Pirlo, Ibrahimovic, Xavi, Iniesta, Vidic, Mascherano, Gerrard, Roberto Carlos, Del Piero, Figo, Rooney, Zidane, Kaká, Casillas, Ronaldo, Schweinsteiger, Sneijder, Júlio Cesar, Lahm, Cech, Van Persie, Maldini, Ronaldinho... Cada um destes geniais futebolistas marcou profundamente a minha formação como entusiasta do Esporte Bretão e, como um todo, inspirou-me a ser o cidadão melhor que tento ser a cada novo raiar de sol.
A gente realmente vai envelhecendo e vamos vendo estas lendas desportivas encerrarem suas caminhadas, pondo chuteiras, luvas, calções e camisas de lado, entrando na História, saindo de cena como entraram: grandiosos mas sabendo que o tempo de suas glórias havia chegado a um (excelente) termo.
Cada um nesta pequena lista (poderia citar muitos outros) marcou com letras douradas sua passagem pelos gramados da Europa. Muitos ganharam Copas do Mundo, Eurocopas, Champions League e Ligas nacionais importantes. Outros se tornaram referências por uma jogada inventada, um drible tirado da cartola, uma nova maneira de bater na bola, seu comando em campo, o preparo para barrar ataques poderosos e por aí vamos numa deliciosa conversa de botequim, daquelas que aclaram tempos sombrios como os atuais.
Nenhum deles, contudo, foi tão colossal no sentido anímico quanto ainda o é (e isto é o mais impressionante) Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, 36 anos, natural de Funchal, capital da província portuguesa da Ilha da Madeira, quarto e mais novo filho de uma humilde cozinheira e um atormentado jardineiro, veterano da terrível Guerra do Ultramar, onde lutara em Angola e viu as mais escabrosas atrocidades de que o ser humano é capaz. Foi o pai, inclusive, quem o batizou em honra ao seu ator favorito, Ronald Reagan, futuro presidente dos Estados Unidos. Como ator e político Reagan era canastrão e bastante questionável, tudo o que Cristiano não seria em seu ofício.

Comecei a vê-lo jogar na mesma fase em que admirava a grande maioria dos ídolos que referenciei. O menino oriundo da invejável formação do Sporting Clube de Portugal e de sua cidade desportiva, em Alcochete, desde o início me cativava pela vontade de aço em superar obstáculos técnicos, táticos e adversidades físicas.
No Manchester United, sua mais recente velha-nova casa, é que ele começou de fato a encantar, ver e ser visto após aquela maluca Eurocopa em que Felipão acreditou no seu potencial e o fez titular da esquadra lusitana que acabou batida na final por uma retrancada Grécia, no que se tornou um Maracanazo d’Aquém mar aos nossos antigos colonizadores.
Como amante de futebol e descendente de portugueses, fiz questão de observar com atenção toda partida possível dele, animado em ver alguém tão destemido singrar como um foguete no campeonato mais difícil e competitivo do Mundo. As conquistas ao lado de Alex Ferguson não tardaram, tendo ele vencido tudo o que disputou em Old Trafford nos cinco anos e meio em que lá ficou.

E como foi gostosa essa época para um adolescente colegial que podia ver de perto, todas as semanas em tardes despreocupadas, galácticos já mais velhos como Zidane, Figo, Ronaldo, Ronaldinho ou Pirlo misturarem o auge/final de suas carreiras com nomes que já eram certos como seus sucessores, nomeadamente Cristiano, Messi, Kaká, Ibrahimovic, Xavi e Iniesta.
Ele e Kaká, inclusive, terminaram dois ciclos vitoriosíssimos em Manchester e Milão, respectivamente, para voar no rumo de Castela e La Mancha a fim de representar o Real Madrid, expoente máximo da política de superestrelas em seus elencos. O português não teve problemas para se firmar como ídolo máximo da exigente torcida merengue, estando hoje na seleta galeria de monstros sagrados do Santiago Bernabeu com vultos do porte de Di Stefano, Puskas, Butragueño, Raul e Hugo Sánchez.
Para além das inacreditáveis quatro Ligas dos Campeões erguidas na capital espanhola, Cristiano conseguiu o que pouquíssimos jogadores lograram na História — Uma absoluta reinvenção tática, tornando-se um letal centroavante e inigualável cabeceador. Era uma máquina de balançar redes dos mais humildes porteros na Copa do Rei aos mais titulados paredões europeus, sempre se adaptando muito bem a novos treinadores e estilos de jogo. A equipe passou a jogar para alimentar o outrora meia-esquerda, agora um temível atacante de área.

A postura de líder e ciência de sua importância social em seu pequeno país foram outros aspectos que sempre me cativaram no madeirense. Nunca vou deixar de agradecê-lo pelas lágrimas que vi meu avô externar após aquela mítica tarde/noite em que o antigo Portugal-potência, baluarte do Quinto Império ocidental, bateu os franceses em sua própria casa, trazendo para Lisboa um título mais do que merecido para uma nação diminuta no tamanho mas grandiosa na garra. Sem seus gols e autoridade ao banco na final, em que se machucou nos minutos iniciais, certamente este feito quase irrepetível não ocorreria.
Pela Seleção das Quinas ele ainda faturou, há dois anos, uma Liga das Nações, logo no debute deste novo certame. E tome cinco prêmios de Melhor Jogador do Mundo, uma artilharia de Eurocopa (a deste ano), e mais e mais recordes de gols na Champions League, onde é o maior goleador por muito, e artilharias seguidas nas Ligas da Inglaterra, Espanha e Itália, onde ficou por três anos defendendo a Juventus de Turim.
Às vésperas de celebrar 37 anos, a bestial máquina apodada de Robozão parece não querer parar de romper barreiras lógicas ou humanas. Rumou novamente ao Teatro dos Sonhos para, novamente como um Diabo Vermelho, seguir provando que é o maior atleta de minha geração.
A prova já começou a ser dada na última semana quando, na estreia pelas Eliminatórias europeias para a Copa do Catar, ele bisou em duas cabeçadas antológicas em menos de cinco minutos. A derradeira foi no último lance da partida, dando a vitória aos portugueses num Estádio Algarve em êxtase pela quebra de mais uma marca — A de ser o maior marcador por seleções da todos os tempos.
Ah, e isto tudo após desperdiçar uma cobrança de pênalti e de ter cochilado no gol da Irlanda, o adversário de turno. Com a austeridade que só é reservada a grandes ídolos e campeões, o rapaz fez questão de enaltecer o orgulho e amor que sente por jogar com o brasão de Afonso Henriques ao peito, levando o nome do coadjuvante Portugal aos quatro cantos da Terra.
Cristiano nunca foi meu jogador favorito (reparem que evito chamá-lo de Ronaldo, pois para mim só existem dois merecedores deste nome). Aliás, neste quesito prefiro não só Fenômeno e Gaúcho como também Zidane, Iniesta e Messi, eterno “rival” do portuga para a imprensa. A verdade, porém, é que talvez nunca mais vejamos um corpo tão perfeito para jogar e vencer no maior esporte do mundo.

Ele e Messi serão lembrados por mim e pelos meus contemporâneos como um Picasso e Matisse das canchas, Júlio César e Pompeu dos gramados, Newton e Huygens da bola, numa eterna disputa pela coroa que ambos já puseram para sempre na cabeça. Quem foi melhor? Depende de com quem falamos, da paixão que um ou outro desperta na pessoa.
Agora, quem foi maior? Cravo com 100% de certeza que foram ambos, os maiores que talvez meus filhos, netos e bisnetos não mais verão (vide a geração Neymar, né?).
Só posso agradecer por tudo e por tanto nestas humildes linhas, Cristiano. No conjunto de sua obra como atleta e homem, és quase impecável e deixará saudades como alguém que parece ganhar asas ao subir entre zagueiros e escorar, cabeça em riste, para o fundo das redes. Ninguém no mundo jamais saberá cabecear como tu, gajo.
Que vivas (e viverás) para sempre, pois tudo valeu a pena por tua alma não ser pequena, já diria teu patrício Fernando Pessoa.




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